Adaptação resumida pela Prof.ª Luci Rocha
Ouça também a análise feita ao vivo, na rádio USP, no programa Livro Fuvest, com a profª Luci Rocha,
(http://www.youtube.com/watch?v=VMwyvkAdPE8).
(http://www.youtube.com/watch?v=VMwyvkAdPE8).
Til é uma
obra representativa do Romantismo regionalista de José de Alencar. Foi escrita
em 1872, mas resgata um passado de segredos e vinganças que vai de 1826,
passado dos personagens, a 1846, presente deles.
O cenário
é a fazenda das Palmas (e as vastas terras nas proximidades), localizada no
interior de São Paulo, onde hoje é a cidade de Americana. No livro, ainda são
citadas as cidades de Santa Bárbara e Piracicaba que se constituíam como vilas
naquela época.
“Cerca de
uma légua abaixo da confluência do Atibaia com o Piracicaba, e à margem deste
último rio, estava situada a fazenda das Palmas.
Ficava no
seio de uma bela floresta virgem, porventura a mais vasta e frondosa, das que
então contava a província de São Paulo, e foram convertidas a ferro e fogo em
campos de cultura. Daquela que borda as margens do Piracicaba, e vai morrer nos
campos de Ipu, ainda restam grandes matas, cortadas de roças e cafezais.” (Cap.
IV, pág. 08)
O enredo
gira em torno da personagem Berta e os segredos que envolvem o seu passado: A
menina mora com sua mãe e irmão de criação (Nhá Tudinha e Miguel) em uma casa
perto da rica fazenda das Palmas. Fora adotada ainda bebê, mas Miguel não a
considera simplesmente uma irmã e demonstra profundos sentimentos por ela.
Na
fazenda das Palmas vive a rica família do Senhor Luís Galvão, com sua esposa D.
Ermelinda e os filhos adolescentes, Afonso e Linda.
Além
dessas duas famílias, aparecem como personagens importantes um capanga bugre,
chamado Jão Fera; um menino com problemas mentais, o Brás, e uma negra já
enlouquecida cujo nome é Zana.
O enredo
apresenta os amores inocentes, e até certo ponto platônicos, de Linda por
Miguel e de Afonso por Berta; os quatro são amigos e passeiam sempre juntos
pelos campos próximos ao rio.
Brás, o
menino excepcional, será alfabetizado por Berta. Ela percebe que ele sente-se
atraído pelo acento til (~) ao ser apresentado ao alfabeto e, partindo daí, diz
ao garoto que ela se chama Til, para aproximar-se mais e conseguir alfabetizá-lo.
Muitos
segredos do passado envolvem a vida de Berta e ao longo da narrativa vamos
descobrindo que ela é uma menina especial, que está destinada a ajudar aqueles
que sofrem, sendo eles pessoas ou animais.
É um
enredo novelesco, com altos e baixos, que aos poucos vai se revelando numa
trama cheia de coincidências e artifícios românticos.
PARTE I
O capanga
(I)
O enredo
inicia-se apresentando os irmãos de criação Berta e Miguel que passeiam pelos
campos próximos à fazenda das Palmas.
Com uma
linguagem ricamente idealizada e romântica, o narrador descreve a paisagem e as
personagens, que aparecem integradas àquela natureza fresca e cheia de
vitalidade.
O capanga, que
intitula o capítulo I, refere-se a Jão Fera, com quem Miguel e Berta vão
deparar-se durante esse passeio. A princípio, assustam-se com a aparição
daquele facínora, ali perto das matas, porém Miguel aponta a arma para ele numa
atitude de ameaça. O capanga pede que atire, pois assim estaria fazendo um bem
a ele e aos outros, mas Miguel abaixa a arma, arrependido do gracejo.
Berta
reage perguntando a Jão Fera o porquê daquele despeito e ele apenas responde:
“Esta vida me cansa!”.
Ao ser
provocado por Miguel, que lhe pergunta se já está com saudades da forca, o
capanga encara-o, porém Berta pede ao bugre que se vá e este obedece-lhe
prontamente: “vencido por ignoto poder, curvou a cabeça, de um arranco
visível afastou-se vagarosamente com um passo tão pesado que lhe custava a
arrancar do chão a palma do pé.”
Na
tronqueira (II)
Miguel
desconfia que Jão Fera anda atrás de alguém a quem vai matar e observa que essa
atitude submissa dele diante de Berta era mesmo muito estranha. Ela apenas
responde ao rapaz que Fera age assim porque ela não o teme. Mas Miguel a
provoca, dizendo que ela deva ter algum patuá, um encanto que a protege. A
menina brinca e concorda, mostrando um bentinho que carrega pendurado ao
pescoço.
Estando
próximos à tronqueira (espécie de cerca ou porteira), Miguel fica a observar os
modos graciosos de Berta. Esta sobe nessa porteira e começa a balançar-se,
encantando e perturbando a visão de Miguel. O rapaz resolve voltar dali, mas
Berta o chama, pois precisava encontrar-se com sua amiga Linda, que viria com
seu irmão Afonso, para verem Berta e Miguel. Ouviu-se um agudo assobio e Berta
viu um vulto, em meio às folhagens, que parecia Jão Fera.
Ela (III)
O
narrador descreve física e psicologicamente a personagem Berta: “Era ela de
pequena estatura e tão delgada e flexível no talhe, que dobrava-se como o junco
da várzea. (...)”
“Servia-lhe
de toucado um chapéu de palha de coco trançada, sob o qual escondia os lindos
cabelos negros cacheados, que às vezes, com os saltos, escapavam da prisão e
vinham folgar sobre as espáduas. Calçava grossos coturnos de couro de veado
(...), onde, aliás, afogava-se o pezinho buliçoso”.(pág. 14)
(...)
“Os
grandes olhos, negros, claros e serenos, como um lago cristalino imerso na
sombra, não podiam negar que fossem de mulher: tinham a diáfana profundidade do
céu, cheia de enlevos e mistérios.
A boca
mimosa e breve, conhecia-se que fora vazada no molde do beijo e do sorriso. Mas
quando o brinco iluminava essa fisionomia, e o capricho quebrava-lhe a harmonia
das linhas do suave perfil, era cobrir-se com a máscara do rapazinho estouvado,
que ela teria sido sem dúvida, se a natureza não lhe trocasse o destino.
Nesse
prisma da lindeza de Inhá reflete-se a sua índole. Aquela alma tem facetas como
o diamante; iria-se e acende uma cor ou outra, conforme o raio de luz que a
fere.
Contradição
viva, seu gênio é o ser e o não ser. Busquem nela a graça da moça e encontrarão
o estouvamento do menino; porém mal se apercebam da ilusão, que já a imagem da
mulher despontará em toda sua esplêndida fascinação. A antítese banal do
anjo-demônio torna-se realidade nela, em quem se cambiam no sorriso ou no olhar
a serenidade celeste com os fulvos lampejos da paixão, à semelhança do
firmamento onde ao radiante matiz da aurora sucedem os fulgores sinistros da
procela”. (pág. 14)
Neste
capítulo, além da descrição completa de Berta, o narrador revela o ciúme e o
amor que Miguel sente por ela. Miguel não a quer perto de seu amigo Afonso,
pois sabe que este se interessa por ela; além disso, não se sente bem quando
Berta força-o a ficar perto de Linda, a quem ele não ama.
Monjolo
(IV)
O narrador
apresenta a Fazenda das Palmas, cujo dono é o personagem Luis Galvão.
“Cerca de
uma légua abaixo da confluência do Atibaia com o Piracicaba, e à margem deste
último rio, estava situada a fazenda das Palmas.
Ficava no
seio de uma bela floresta virgem, porventura a mais vasta e frondosa, das que
então contava a província de São Paulo, e foram convertidas a ferro e fogo em
campos de cultura. Daquela que borda as margens do Piracicaba, e vai morrer nos
campos de Ipu, ainda restam grandes matas, cortadas de roças e cafezais.” (pág.
16)
Nessa
trama paralela, ficamos conhecendo o personagem Monjolo. Um escravo de Luís
Galvão. Esse negro veio ao encontro de um homem para dar um recado de um pajem
(escravo Faustino). A conversa entre eles, a princípio, é meio enigmática,
porém a seguir é revelado que um certo Barroso havia contratado Monjolo e
Faustino, escravos de Luís Galvão, para que pudessem colaborar em uma cilada
contra o próprio patrão, em troca de dinheiro.
Aqui
também é descrita a “azinhaga da Ave-Maria”, um lugar cercado de mistérios, com
caminho estreito e escuro, onde se dizia poder ouvir as vozes de almas penadas
que ali morreram em emboscadas.
A tocaia
(V)
Jão Fera
caminha no meio do mato fechado, em direção à azinhaga da Ave-Maria, vai
encontrar-se com um cavaleiro. Refletindo sobre sua condição de homem destinado
à maldade, conclui que é sua sina e pensa em Berta que ficará sabendo o que ele
há de fazer.
Enquanto
passa por essa agonia moral, ouve o tropel de um cavalo. Era um rebuçado (homem
disfarçado em capa preta), cujo animal assustou-se com uma cobra urutu, mas o
bugre conseguiu acertá-la com sua faca.
O empenho
(VI)
Depois de
questionado, o homem identifica-se como Barroso. Queria os serviços do bugre
para cumprir uma vingança contra Luis Galvão. Barroso explicou que não eram
problemas com mulher, mas coisas relacionadas à política. Barroso reclama que
Jão Fera está demorando a cumprir o trato e o capanga tenta explicar ao homem
que se soubesse contra quem seria a tal vingança, jamais teria aceitado o
dinheiro. Tenta desfazer o combinado, mas Barroso não aceita. Jão dá a sua
palavra: ou devolverá o dinheiro a Barroso ou matará o homem até a festa de São
João.
O
marmanjo (VII)
Passa-se
uma cena entre a mucama Rosa que aparece na janela da casa grande e um mestiço
que, do lado de fora, faz gracejos. O pajem Faustino, fica
enciumado e manda-a servir a mesa.
Nesse
capítulo, é apresentada a família que mora na Fazenda das Palmas: D. Ermelinda
tinha 38 anos, não era bonita, porém destacava-se em elegância e inteligência.
Sr. Luís Galvão era um homem bonito e jovial, fisionomia inteligente e regular
estatura. Os filhos gêmeos: Linda e Afonso.
Além dos
membros da família, encontra-se também um menino de quinze anos que, segundo o
narrador, “era feio (...), mal
amanhado e descomposto em seus gestos, (...) com expressão indiferente e
parva.” Sobrinho de Luís
Galvão, órfão de pais e com problemas mentais. Era Brás, o idiota. Nesse dia,
ele derrubou café na camisa e a mucama Rosa chamou-lhe a atenção. Em seguida,
ele cravou-lhe um garfo na coxa.
Pressentimento
(VIII)
D.
Ermelinda mostra-se preocupada em excesso com a viagem que o marido haverá de
fazer a Campinas. Ela diz estar com maus pressentimentos naquele dia, mas não o
impede de partir. Refere-se às esperas (emboscadas) que têm acontecido por
aquelas estradas, fala de Jão Fera e do pavor que ele causa a todos. Mas o
marido a tranquiliza, lembrando que o capanga foi criado na casa de seu pai,
Sr. Afonso Galvão, e não poderá ser tão ingrato a ponto de fazer-lhe algum mal,
pensa que ele o respeita.
Linda
pede ao pai que não parta, pois a mãe está muito angustiada. Ele brinca dizendo
que se não for, ela ficará sem os vestidos e enfeites encomendados pela menina
para a festa de São João.
As amostras
(IX)
Luis
Galvão parte e os filhos Linda e Afonso saem para passear, a pedido da mãe.
Depois de uns minutos, o marido, o pajem e um capanga que o acompanham
regressam a casa. Luis Galvão diz à mulher que se esqueceu da lista com as
encomendas da filha, mas na verdade ele pega às escondidas um papel e guarda-o
no bolso. Segundo o narrador, esse homem tinha um segredo e isso poderia estar
revelado nesse papel.
Os gêmeos
(X)
Os irmãos
Afonso e Linda saem para passear. Pretendem ir ao encontro de Berta e Miguel.
Pelo caminho, provocam-se pelo fato de um saber do segredo de amor do outro.
Linda fica intimidada quando o irmão sugere que ela possa estar apaixonada por
Miguel.
“Tinha a
beleza de Linda um doce alumbre de melancolia, que não era tristeza, pois
coavam-se através dos inefáveis contentamentos de sua alma; era sim matiz, que
lhe aveludava a graça e influía-lhe um mavioso enlevo. Irmã das flores que
vivem nos recessos da floresta, onde se coalham em sombra luminosa os raios
filtrados pelo crivo das folhas, respira essa beleza o perfume casto da violeta
e da baunilha.
Afonso
era o retrato da irmã. Pareciam-se como gêmeos e gêmeos tinham nascido. Mas
nele a gentileza era um fogo de artifício; a índole jovial, que herdara do pai,
lhe estava constantemente a brincar no gesto prazenteiro e nas cascatas do riso
cordial e folgazão.” (Pág. 22)
O
narrador relata um fato envolvendo Afonso e Berta. Um dia, o moço disfarçou-se
com as roupas de sua irmã, Linda, e ao encontrar-se com Berta, encheu-a de
beijos. Somente quando ele descobriu os cabelos, foi que Berta percebeu a
artimanha do rapaz.
No
tanquinho (XI)
“Além, na
assomada de uma colina frondava um vistoso ramalhete de palmeiras de diversas
espécies, entre as quais avultava o jeribá com seus lindos penachos.
Chamavam
a este lugar o Palmar e dele proviera o nome à fazenda.”(pág. 23)
Linda e
Afonso apressam-se para chegarem logo onde estão os amigos. Passam por lugares
agradáveis e sublimes, descritos de forma idealizada pelo narrador:
À margem
do Tanquinho, bonito lago formado pela represa de um ribeirão, que saía
gorgolando do mais embrenhado da floresta e traçava meandros entre as palmeiras
para perder-se no pasto, uma figueira brava esfraldava os ramos, em esparavel,
ensombrando a pelúcia de relva.(pág. 23)
Quando
chegaram ao lugar combinado, próximo ao tronco de uma figueira, perceberam que
os dois amigos não estavam lá. Linda colocou a culpa em Afonso, que se demorou
com brincadeiras, porém este soltou um apito na tentativa de avisar Miguel e
Berta da chegada dele e da irmã.
Berta,
que estava em um campo próximo, ouviu o apito e saiu correndo ao encontro de
Linda, porém Miguel, sempre com ciúmes, não respondeu ao amigo.
Ao se
encontrarem, as amigas passaram a falar-se com animação, mas Afonso notou o mau
humor de Miguel. Berta o denunciou, contando que ele preferira caçar, por isso
estava com aquela cara. Linda mostra-se tímida quando Berta e Afonso sugerem
que Miguel não teria resistido a vir ao encontro somente para ver Linda. O
moço recusa-se a brincar.
“Súbito
no mato soou um grito bravio, e logo após a voz estranha, ao mesmo tempo
saturada de dor e impregnada de sarcasmo, lançou em uma gama estridente este
clamor incompreensível:
- Til!...
Til!... Til!... Oh! Til!...”(pág. 25)
Idílios
(XII)
O narrador
dá-nos a entender que os pais de Linda e Afonso desconhecem esses encontros que
têm quase toda a manhã com Berta e Miguel. Discorre também sobre os sentimentos
de Afonso por Berta (Nhá) e de Linda por Miguel. Fica evidente que Berta é
carinhosa com todos e não demonstra preferências; porém Miguel só tem olhos
para ela, Berta.
Susto
(XIII)
Depois do
susto com os gritos de Brás, Linda e Miguel passam a conversar. A moça quer
saber se ele tem interesse em estudar, mas Miguel adianta-se em explicar a ela
que lhe falta dinheiro para isso. Linda sugere que ele possa emprestar de seu
pai, o rico Luis Galvão, porém o moço responde que não o poderia pagar depois.
Enquanto
conversam, Berta observa o senhor Galvão que passa por uma esplanada. Linda
explica que o pai vai a Campinas e que a mãe anda preocupada por causa das
“esperas” de que tanto se têm falado e ,além disso, o tal Jão bugre andou
rondando a fazenda. Berta fica apavorada com essa notícia e enquanto Linda,
Miguel e Afonso conversam, ela desaparece no meio do mato.
A Vespa
(XIV)
Lembrando-se
do semblante cruel de Jão Fera, quando o encontraram pela manhã, Berta sente
que precisa livrar Luis Galvão da tocaia, desconfia que ele seja a vítima da
vez. Andando rapidamente pelo mato, cai em um buraco, livra-se de um animal que
a persegue e, enfim, chega até a azinhaga bem no momento em que o bugre
pretendia atacar o fazendeiro. Berta aproxima-se, pegando-o pelos cabelos, por
trás, e sussurra em seus ouvidos: “Malvado!”.
Como se
fosse picado por uma vespa, Jão Fera vira furioso e encara a menina.
O
relicário (XV)
“Era
medonha a catadura de Jão Fera quando voltou-se.
A fauce hiante do tigre, sedento
de sangue, ou a língua bífida da cascavel, a silvar, não respirava a sanha e
ferocidade que desprendia-se daquela fisionomia intumescida pela fúria.”
(pág.32)
Berta,
imbuída de coragem e fúria, pergunta ao capanga se ele está ali para matar
alguém. Diante da resposta positiva deste, ela continua questionando se ele não
tem vergonha de fazer isso. Jão Fera explica que estão a pagar-lhe para isso,
mas a menina o faz calar, ataca-o com palavras duras, acusando-o de monstro,
ingrato.
Diante de
sua fúria, o bugre defende-se e diz que se tivesse dinheiro, desempenharia a
palavra dada, mas não o tem. Então Berta tira do pescoço uma corrente de ouro
(o relicário de sua mãe) e entrega a ele. Pede para vendê-la e desistir de
matar o pai de Linda. Jão Fera fica transtornado diante dela e desaparece.
“Estalou
com um grito horrível e bravio o peito de Jão Fera, que arremessando-se longe,
desapareceu nas brenhas.
Foi o
tempo em que pela rampa do barranco despenhava-se um corpo humano, que veio
cair estrebuchando aos pés da menina, com a gorja a estertorar e os dentes a
ranger.
Berta o
reconheceu.
Era Brás,
o idiota.”(pág. 34)
Parte II
A sura
(I)
Já se
passavam três dias depois que Berta interceptara Jão Fera, impedindo-o de matar
Luís Galvão. Estava uma manhã fria e brumosa e Berta vai até o quintal para
tratar de uma galinha sura (com rabo curto), cujos pés haviam sido roídos por
uma ratazana. Lavou suas penas em uma bica e depois a aconchegou em uma
palhoça, protegendo a ave das maldades diárias que alguns da casa praticavam
com ela.
Zana (II)
Escondeu-se
de Miguel e dirigiu-se em direção à casa de Zana. Pelo caminho, parou para
cuidar de um burrinho. O animal invadira uma roça de milho e o dono da
plantação acertou-o com uma foice, arrancando-lhe uma orelha e um pedaço da
cabeça. Lavando a ferida e cobrindo-a com folhas de fumo (como vinha fazendo
frequentemente), deu-lhe milho e farinha, antes de partir.
Chega a
uma casa em ruínas, onde mora Zana. Essa negra velha, de cabelos “em lã”
demonstra total insanidade em suas atitudes. Duas vezes por semana a menina
visita a louca. Berta observa-a, canta para ela e, depois de vê-la calma,
oferece-lhe comida.
“Recostando-se
então à aba da prateleira, a menina com os olhos fitos na preta começou em um
tom brando e suavíssimo a repetir este acalanto:
Cala a boca, anda, nhazinha,
Ai-huê, lê-lê!
Senão olha, canhambola,
Ai-huê, lê-lê!
Vem cá mesmo, Pai Zumbi,
Toma,
papanha Bebê!” (pág. 37)
O
narrador revela que Berta aprendera com a própria Zana essa cantiga, a qual
fora decifrada com muito custo. Agora, para alimentar a negra, Berta cantava e
repetia carinhosamente a expressão “Zana, Bebê”, o que sempre acalmava a negra.
A visão (III)
Berta,
sentada à porta da cozinha, rabisca o chão e observa Zana, que está
completamente alheia a sua presença.
De
repente ouviu-se um barulho que vinha da mata e Berta esconde-se na cozinha. Ao
olhar para Zana, percebe que ela começa a reproduzir gestos imaginários: abana
um fogo que não existe no fogão, faz como se lavasse a louça. De uma hora para
outra, como se ouvisse um chamado, a negra vai até o quarto, olha pela janela e
solta um grito de terror, atirando-se ao chão feito uma pedra.
O
desconhecido (IV)
O
narrador esclarece que Berta frequenta escondidamente a casa de Zana, pois
sempre fora proibida de se aproximar dela. Essa proibição despertou na menina
uma curiosidade ainda maior, o que a fez tornar-se amiga da doida, a cada dia.
Berta
tinha 15 anos e sua madrasta Nhá Tudinha não escondia dela a condição de filha
adotiva, todavia amava-a tanto quanto a Miguel. Este nutria por Berta um
profundo sentimento, que ia além do amor de irmãos e não escondia isso dela.
Porém,
Berta não se aproveitava desse encanto que exercia nos corações dos dois que a
criavam, ao contrário, evitava proporcionar qualquer tipo de preocupação à
família. Assim, o narrador justifica por que Berta podia ficar tanto tempo fora
de casa.
O
narrador retoma a cena em que Zana havia olhado pela janela e revela que ela
teria visto o Barroso (Ribeiro) o qual, saindo do mato, vinha em direção a casa
dela. Zana, no desespero em que se achou, levantou-se violentamente e deu com a
cabeça na porta. Berta também viu aquele desconhecido que a encarava, por isso
recuou instintivamente.
Ao
procurar Zana, deparou-se com uma cena terrível no terreiro: Brás tentava
esganá-la mas, ao ouvir os gritos de Berta, desaparece no meio do mato.
A menina
tenta animar a negra e depois a ajuda levantar-se e recolher-se dentro de sua
casa em ruínas.
A pousada
(V)
Esse
capítulo descreve uma pousada que se localizava perto de Santa Bárbara. É a
pousada do Chico Tinguá. Ali chega um homem de trinta anos, alto e esguio,
montado em uma mula.
O homem é
Gonçalo Pinta, apelido que não o agrada. Ele chega pedindo café e pergunta por
Jão Fera, mas Chico Tinguá responde que não sabe do capanga, fingindo-se
desinteressado do assunto.
Em
seguida, chega à venda um grupo de caipiras. Eles vêm a pé e acompanhados de
dois cães de caça.
O
bacorinho (VI)
O “chefe”
do bando de caipiras chamava-se Filipe e chegou faminto à pousada. Chico
fornece queijo, farinha e rapadura e eles comem com satisfação.
Enquanto
comem, Gonçalo aproxima-se e tenta puxar conversa com o grupo. Oferece fogo e
cigarro e pergunta a origem deles. Explicam que são de Campinas, mas não são
caçadores de veado ou paca; estão no rasto de uma onça, um “tigre verdadeiro”.
Gonçalo
descobre que esses caipiras estão sendo pagos para matar Jão Fera, pois este
havia matado um homem e, agora, o filho da vítima, um tal de Aguiar, queria
vingar-se do assassino.
Filipe
quer saber se Gonçalo Pinta sabe onde se esconde Jão Fera, mas Gonçalo
transfere a resposta para Chico que prontamente diz desconhecer o paradeiro do
bugre.
Nesse
momento, entra na venda um bacorinho (porquinho) de pelo ruivo que se aproxima
de Tinguá, fossando em suas pernas, como se tivesse a chamá-lo para fora. O
homem desfere contra o bicho um tremendo pontapé, porém compreendendo o recado
trazido pelo bacorinho, sai disfarçadamente e embrenha-se pelo mato, seguindo o
animal.
O trato
(VII)
O
narrador descreve mais precisamente o personagem Gonçalo. Tinha ele um rosto
coberto de sardas, as quais lhe renderam o apelido de “Pinta”. Como não se
agradava com isso, acrescentou ao próprio nome outro apelido: “Suçuarana”.
Gonçalo
invejava Jão Fera com sua valentia e sua fama, por isso planejava liquidá-lo.
Imaginou que Filipe poderia ser um bom comparsa para colocar em prática suas
intenções, por isso combinou de conduzi-lo até a toca do bugre. Além disso, o
dinheiro pago por Aguiar agora seria dividido também com Gonçalo.
Chega à
venda o Barroso, a quem Gonçalo se dirige com certa familiaridade. Gonçalo
descobre que o outro está furioso por Jão Fera desempenhou a palavra, ao
desistir de matar Luis Galvão. Gonçalo oferece-se para concluir o serviço,
difamando o bugre. Um negro chamado Pai Quicé, escondido próximo à venda, ouve
tudo e retira-se.
Nhá
Tudinha (VIII)
Apresenta
Nhá Tudinha e seu gosto pelo trabalho doméstico. Era aproximada a festa de São
João e ela ocupava-se em fazer os doces e broas de fubá.
Berta
aparece de repente para roubar biscoitinhos, assustando e fazendo gargalhar Nhá
Tudinha.
Do
quintal, Brás observa em silêncio. Berta acolhe-o, faz carinho em seus cabelos
e ele dorme. Berta caminha em direção a casa de Zana, porém, percebendo que já
era tarde, resolve voltar. Brás a seguira escondendo-se em um buraco cavado com
as próprias unhas. Ela o encontra, leva-o de volta para almoçar. Antes,
lava-lhe as mãos e corta-lhes as unhas.
Lição
(IX)
Depois do
almoço, Berta ocupa-se em remendar as roupas que precisavam de conserto,
enquanto Brás, agachado junto dela, observa-a de mãos unidas, rezando a Ave
Maria para agradá-la. Berta elogia Brás e abraça-o carinhosamente. Passam-se
momentos de paz no espírito do rapaz e de ternura maternal no coração de
Berta.
Brás
recusa-se a rezar pela família de Luis Galvão, mas diante da ameaça de Berta,
dizendo a ele que deixaria de ser “Til”, o idiota chora e repete a oração
ditada por ela: “- Virgem
Puríssima, Rainha do Céu, Bem-aventurança nossa, Mãe de Jesus e dos aflitos,
intercedei por meu tio, minha tia e meus primos; por mim, por Berta e aqueles a
quem ela quer bem, e fazei-nos a todos felizes.”
- Vamos à
lição! Disse Berta.
Repetiu
então o Brás de cor o abecedário e uma parte da carta de sílabas e nomes.
O idiota
(X)
Com uma
varinha de madeira, Berta riscava no chão as letras do alfabeto. O narrador
evidencia a falta de inteligência do menino, dizendo que ele não tinha
espírito, já que suas feições tornam-se animalescas diante do aprendizado.
Refere-se
a ele como “um mísero idiota”, “um bruto”, “mostrengo”, “aborto humano”,
“caveira suína”, etc.
Explica
que Brás era filho de uma irmã de Luis Galvão. Ao ficar órfão de pai e mãe,
passou a viver na casa do tio, porém era ignorado ou tratado com repugnância
por todos da casa.
“Consentia
D. Ermelinda em ser-lhe mãe e cercá-lo de toda a solicitude, apesar da natural
repulsão que deviam causar à sua índole tão delicada os modos brutais e parvos
do idiota. Não lhe sofria, porém, o coração que seus filhos vissem nesse menino
malamanhado e grosseiro um camarada e um parente, quanto mais um irmão.”
Luis
Galvão teria tomado a iniciativa de matricular Brás em uma escola, porém desde
os primeiros dias, o menino sofreu severas punições do professor Domingão, que
considerava a violência o melhor método de alfabetizar.
Mas
quando Brás foi colocado diante das letras e sinais:
“Quando
lhe puseram nas mãos a carta pregada em uma tábua, o menino percorreu todos
aqueles hieróglifos com olhos pasmos e botos, e só deu sinal de atenção, em
descobrindo o til.
Então
expandiu-se-lhe o estúpido semblante com um riso alvar, que estertorou na
gorja, e, tomado por súbita alacridade, ele, de ordinário soturno e pesado,
começou a fazer trejeitos e gatimonhas ao pequeno sinal ortográfico, procurando
imitá-lo a uma com os dedos, com a boca, e até com todo o corpo nos saltos
extravagantes que dava pela casa.”
Todos os
alunos riram muito dessa reação inusitada de Brás e o professor surrou-lhe
impiedosamente. Brás fugiu para o mato.
O abecê
(XI)
Berta um
dia encontrou Brás que fugira da escola e levou-o para a casa dela. Para
livrá-lo dos castigos, resolveu ela mesma ensinar-lhe a lição. Ao ver o acento
“til”, ele passou a corcovear-se e dar cambalhotas como teria feito na escola.
Berta entendeu que aquilo poderia ser um momento de alegria na mente insana do
rapaz e aproveitou para arranjar uma estratégia de ensino. Olhou para ele e
disse que ela era “Til”, para a surpresa e alegria do parvo.
A partir
desse dia, Berta exigia que Brás a chamasse de Til e assim o fazia pronunciar
este monossílabo.
Começou a
mostrar-lhe outras letras. O fonema “A” ela associou ao nome de Afonso, mas
Brás reagiu mal, tomando o papel das mãos de Berta e rasgando-o com os dentes.
Ela agiu com paciência, mostrou-lhe o “B”, dizendo a ele que gostava daquele
porque era “B” de Brás.
“Dessa
forma, em torno dela, que era o til, Berta foi engenhosamente agrupando todas
as letras do alfabeto, com os nomes das pessoas e objetos que a cercavam. (...)
Ao cabo de um mês, conhecia Brás todo o abecedário.”
A cutia
(XII)
Brás
obedecia cegamente às ordens de Berta. Terminaram a lição do dia, ela pediu-lhe
que descansasse. Miguel aparece com ar sério e triste e Berta pergunta se ele
não se deu bem na caça. Miguel revela a ela que sabe sobre suas idas à casa de
Zana e isso incomoda a menina, que se zanga com ele.
Enquanto
Berta conserta uma roupa, meio aborrecida com a revelação do moço, Brás a
admira, mas olha como um cão feroz para Miguel.
Berta
ganha uma cutia de Miguel e fica feliz. Pede a ele para que faça uma casinha,
onde poderá abrigar o bichinho e revela que pretende dá-lo a Linda, mas essa
ideia decepciona Miguel. Enquanto conversam, Brás, sorrateiramente, solta a
cutia, que foge rápida para o mato. Miguel fica bravo com Brás, mas Berta o
impede de castigar o menino. Miguel resolve dizer a Berta que a quer bem e que
sabe que ela não se importa com ele, por isso não a aborrecerá mais.
A bolsa
(XIII)
Jão Fera
sai de seu esconderijo e encaminha-se à venda de Chico Tinguá. Pelo caminho,
encontra Brás que se empenha em cavar um buraco a fim de fazer uma armadilha,
na qual pretendia prender o capanga. Mas Jão passa por ele, ignorando-o.
Já fazia
três dias que havia se encontrado com Berta na azinhaga da Ave Maria e agora
tentava fugir da menina, envergonhado.
Seguindo
em direção à venda, topou com Luis Galvão, mas não fez nada contra ele.
Quando
encontrou o Barroso, o bugre avisou-lhe que não fez o trabalho contratado
porque não quis. Houve uma discussão entre os dois e Barroso o acusa de
tratante. Jão Fera derruba Barroso, pisa em seu peito e diz que não acaba com
ele ali porque ainda está lhe devendo, mas até a festa de São João haverá de
pagar-lhe.
Barroso
sai da venda esquecendo-se de uma bolsa cheia de moedas. Jão Fera entrega-a ao
dono da venda e pede que a devolva “àquele safado” do Barroso.
O bugre
vai embora e num atalho encontra um mascate italiano a contar o dinheiro que
ganhara com as vendas do dia. Poderia ser uma maneira de conseguir o dinheiro
para pagar o maldito Barroso, poderia roubá-lo facilmente.
Desencargo
(XIV)
Ao
contrário de animar-se com a ideia do roubo, Jão Fera havia pensado em
pedir-lhe emprestado o dinheiro que precisava para pagar ao Barroso. Receando
que o italiano pudesse pensar que ele fosse um ladrão, Jão resolveu afastar-se
dali.
Passaram-se
três dias e ele não havia conseguido o dinheiro. Trabalhar na roça ele não
queria, pois se sentia rebaixado à condição de escravo.
Encontra-se
em seguida com o Chico Tinguá e este lhe põe a par dos planos que Gonçalo Pinta
está a tramar para matá-lo. A partir dessa informação, tem uma ideia: Jão Fera
pede ao Chico que vá até o tal Aguiar (homem que estava pagando os caipiras
para matar Jão Fera) e pedisse a ele cinquenta mil réis. Se o homem atendesse,
Jão prometia entregar-se, sem necessidade de caçadas contra ele.
Depois
que Chico Tinguá partiu, o capanga dirigiu-se à casa de Nhá Tudinha.
Ao
encontrar Berta, conta a ela que já poderá desempenhar a palavra junto ao
mandante do crime de Luis Galvão. Berta agradece e Jão Fera faz um pedido: quer
beijar o bentinho (crucifixo) que ela traz ao pescoço. Assim é feito.
Nesse
momento, Brás aparece todo enlameado, com as roupas rasgadas e cabelos cheios
de gravetos. Vem com uma cutia entre as unhas para presentear Berta. Olhando
para Fera, o menino faz caretas animalescas.
Trama
(XV)
“Era
véspera de São João”.
Neste
capítulo, aparece Nhá Tudinha que se encarrega de fazer as comidas e os doces
para a festa. Berta e Linda passeiam pelo terreiro enfeitado da fazenda das
Palmas, enlaçadas pela cintura uma da outra.
Linda
mostra-se triste e enciumada porque entende que Miguel não a ama, acha que ele
só tem olhos para Berta. A amiga anima-a dando gargalhadas para demonstrar o
quanto seria absurda as suspeitas de Linda. Enquanto conversam, Berta percebe o
vulto de um pajem (escravo), o Faustino, que parece esgueirar-se por trás dos
pessegueiros. Faustino fora encontrar-se com Barroso e outro escravo de Luis
Galvão, o Monjolo.
Esses
dois escravos aceitaram colaborar com Barroso na morte de Luis Galvão, em troca
de alforria e dinheiro.
Brás,
escondido em buraco, ouviu todo o plano e soltou um riso de satisfação e
crueldade, “arregaçando-lhe dos beiços estúpidos”.
Pai Quicé
(XVI)
Brás
aparece sentado ao chão, espetando cruelmente com espinhos de juçara, seis
gafanhotos contra os quais desferia xingamentos e ameaças. Em seguida,
esmagou-os com uma pedra, arrancando as cabeças de outros, com os próprios
dentes. O narrador revela que os gafanhotos representavam para Brás as pessoas
da casa das Palmas, que ele odiava, e Berta era a única pessoa que Brás
respeitava e por quem desenvolvera afeto sincero. Dessa forma, vivia maquinando
vinganças e crueldades contra os outros.
Brás
mantém uma cascavel bem alimentada em um buraco e, numa tarde, depois de dar a
ela um sapo, prendeu-a com uma forquilha, aproximou-se da casa das Palmas,
subiu em um pé de jabuticabas, alcançando a janela do quarto de Linda e
arremessou a cobra sobre sua cama.
Berta e
Linda, seguem felizes ao encontro do Sr. Luis Galvão que chegara de viagem.
Muitos escravos também se dirigem “para tomar a bênção ao seu senhor”. Um deles
é Pai Quicé: “inválido, curvado como um arco de pipa, com a cabeça lisa como um
quengo, e o queixo fino como uma faca desdentada.” Esse era o favorito de
Berta.
Pai Quicé
revela à menina o plano que ouviu na venda do Tinguá: Jão Fera será preso à
traição naquela tarde.
Berta
quer avisar Jão e pede para que o velho escravo a conduza até o esconderijo do
capanga. Berta pergunta sobre seu chapéu e Linda avisa que está no seu quarto,
sobre a cama. Brás, quando ouve, cai da árvore, pois não queria ferir Berta e a
cascavel já se enroscava nas rendas dos travesseiros.
PARTE III
O
bugrezinho (I)
Retomando
o ano de 1826, o narrador inicia o capítulo apresentando Besita. Era uma linda
e respeitada moça do povoado de Santa Bárbara e morava só com o pai.
Luis
Galvão era um moço de 20 anos e tinha como camarada (espécie de capanga), Jão
Fera, chamado por todos de Bugre, por causa de seu aspecto indígena.
O
narrador revela que Jão teria aparecido na fazenda do pai de Luis Galvão, o
senhor Afonso Galvão, em circunstâncias muito misteriosas: era uma criança com
pouco mais de um ano, que se encontrava sozinha, em cima de um cavalo, agarrado
às crinas do animal.
Ninguém
soube realmente como e porque viera parar ali. Uns achavam que eram coisa do
Anticristo, outros pensavam ser o menino vítima de uma enchente, na qual se
teriam perdido os pais.
Afonso
Galvão o batizara com o nome de João e ele tornou-se logo amigo de infância e
fiel acompanhante de Luis, a quem protegia de brigas e confusões.
O casamento
(II)
Passando
um dia perto da casa de Besita, Luis viu-a na janela e apaixonou-se por ela. No
entanto, Jão também a amava e quando percebeu os sentimentos do outro, a
princípio revoltou-se, brigou com quem pudesse e embriagou-se, mas depois
entendeu que só o amigo rico poderia fazê-la feliz. Conformou-se.
Besita
compreendeu que era amada por ambos, mas sabia também que Luis era orgulhoso e
a desejava apenas fisicamente; o bugre era resignado e respeitoso. Assim,
tornou-se fria em ralação a Luis Galvão e afetuosa com Jão Fera.
Luis
Galvão passou a frequentar assiduamente a casa de Besita, porém nunca assumira
um compromisso com ela.
Um rapaz
chamado Ribeiro pediu-a em casamento. Senhor Guedes revelou o fato a Luis
Galvão para saber dele as intenções que tinha em ralação a sua filha Besita,
porém o moço não se manifestou a respeito, dando a entender que não estaria
interessado. Por isso Besita aceita o pedido do Ribeiro, mesmo a contragosto.
Jão Fera,
inconformado de ver sua amada entregue a um estranho, afasta-se de Luis Galvão
e vai embora da fazenda. Enquanto isso, Besita casa-se, porém não se consuma o
casamento porque Ribeiro, logo após a cerimônia, parte para Itu a fim de tratar
de uma herança e Besita passa a viver em uma casa de fazenda, que pertencia a
Ribeiro.
Bebê (III)
Depois de
dois meses, ausente ainda o marido, Besita recebera uma visita noturna de Luis
Galvão. A princípio, pensando que fosse o marido, a criada Zana permitiu que o
rapaz entrasse na casa. Besita entrega-se a ele e revela o engano a Zana.
Apenas Jão Bugre, que andava sempre a vigiar a casa da moça, desconfiara desse
fato, e desejou matar seu antigo amigo, mas Besita o proibiu.
Ribeiro
não regressava. Besita deu à luz uma menina, que recebera o nome da mãe, Berta.
Jão a levara para batizar e nesse mesmo dia estava acontecendo o
casamento de Luis Galvão com Ermelinda.
Tempos
depois, quando Berta já tinha dois anos, Ribeiro retorna. Ao aproximar-se da
casa, descobre que fora traído, pois avistou uma criança nos braços de Besita.
Zana tenta enganá-lo, tisnando a criança com carvão para convencê-lo de que a
filha seria dela. No entanto, ele exige a verdade de Besita que, ao revelar
tudo, é estrangulada com suas próprias tranças, pelo marido.
Órfã (IV)
Mesmo
chegando na hora exata do crime, Jão não consegue apanhar o assassino, pois
precisava salvar Besita que já agonizava e pedia para ele proteger a sua
menininha. Então o bugre pegou Berta, que estava no colo de Zana, e aproximou-a
da mãe que se encontrava quase sem vida. Ela beijou a ambos e faleceu.
Nhá
Tudinha, no mesmo dia da morte de Besita, passando pela estrada, ouviu o choro
de uma criança e quando se aproximou viu Jão que tentava alimentar o bebê,
usando um pedaço de pano embebido em café. Viu também que Besita estava morta.
Depois das explicações do bugre,Nhá Tudinha levou consigo a menina, que passou
a criar como filha, ao lado do filho Miguel, o qual já teria uns quatro ou
cinco anos.
Fera (V)
Depois
desse acontecido, Fera tornou-se um homem violento e de mal com a vida, movido
pela sede de vingança e desejo de matar. Adquirindo fama de assassino, passou a
ser contratado para executar diversos crimes, porém nunca se esqueceu de dois
pensamentos únicos que não o abandonavam: vingar a morte de Besita e proteger
Berta.
Em
algumas ocasiões, ele aparecia em Santa Bárbara para visitar a menina. Trazia
presentes e entregava algum dinheiro para Nhá Tudinha comprar o que fosse
necessário. A princípio, Berta tinha medo do bugre, mas depois se acostumou a
sua presença e ao seu aspecto carrancudo e triste.
A menina
ia crescendo e tomando as formas da mãe e Jão Fera tinha a sensação de que ela
lhe pertencia, em função de toda dor e sofrimento pelos quais passara até
então. Sentindo-se atraído, tentava não aproximar-se como antes.
Restituição
(VI)
Ribeiro,
depois da vingança contra Besita, fugiu para Portugal, onde permanecera por
quinze anos. Agora, com uma cicatriz no rosto e com o apelido de Barroso,
regressava a São Paulo.
Voltava
para completar sua vingança: queria matar Luis Galvão e Berta.
Procurou
Chico Tinguá, o dono da venda que, segundo se ouvia dizer, conhecia um sujeito
feroz que se fosse bem pago haveria de executar o serviço.
O sujeito
era Jão Fera. Porém, ao tratar do negócio, um não reconheceu o outro.
A partir
daí, o narrador retorna ao ponto em que Ribeiro (Barroso), depois de saber que
o bugre desempenhara a palavra, ainda assim não desiste de sua vingança.
Ribeiro
havia passado perto da casa das palmas e vira a família de Luis Galvão reunida
no terreiro: Afonso lia para a mãe e Linda tricotava, todos gozando de
invejável paz e serenidade. Daí surgiu-lhe o desejo de ter uma família com quem
pudesse conviver e aquela que ali via Idealizada,
seria perfeita para ele.
Seu plano
agora estendia-se: além de matar Luis Galvão, haveria de tomar-lhe a família!
Arquitetou
o plano de incêndio no canavial, ajudado por Monjolo, Faustino e Gonçalo Pinta.
Pensou
ele em fingir que ajudaria a salvar Luis Galvão, quando este fosse lançado às
chamas e, fazendo-se de amigo da família, prestaria seus serviços, tornando-se
íntimo da casa.
Ribeiro,
acompanhado pelo Pinta, seguia imaginando tudo isso, quando de repente, de
dentro do mato surgiu Jão Fera.
O bugre
interceptou-o apenas para entregar-lhe o dinheiro, completando: “Agora passe
bem. Havemos de encontrar-nos! E desapareceu.”
Fascinação
(VII)
Berta vai
ao quarto de Linda em busca de seu chapéu, mas a amiga quer saber aonde
ela pretende ir com tanta pressa. Ela brinca, dizendo que trará Miguel para
decidir a aposta e fazê-lo dizer que “morre” por Linda.
Afonso
chega e se coloca entre a irmã e Berta, mas ao tentar dar um beijo nela,
Berta entra no quarto e tranca-se por dentro, com a ajuda de Linda que se
encarrega de fazer cócegas no irmão.
De
repente, Afonso e Linda ouvem um grito pavoroso dentro do quarto.
A
princípio acharam que era graça da menina, mas depois Afonso avistou, pelo
espelho, algo inacreditável: uma cobra cascavel diante de Berta, pronta para
dar o bote.
Afonso
soltou um grito de horror que desmaiou a irmã e correu para o terreiro. Do lado
do canavial, ouvia-se uma gargalhada demoníaca e selvagem...Era Brás!
Letargo
(VIII)
A cena
que se passa dentro do quarto de Linda é extraordinária: a cascavel, depois de
assustar-se com o bater da porta, desce até o soalho e prepara-se para o bote,
agitando o guizo. Berta, ao deparar-se com o olhar fulgurante do réptil, soltou
um grito e desmaiou, não conseguindo responder às perguntas de Linda e Afonso.
Aqui o
narrador descreve o encontro entre essas duas criaturas:
“Encontrando-se
o olhar da serpente e o seu, cravaram-se de modo, ou antes se imbuíram e
penetraram tanto um no outro, que não pode mais a vontade separá-los e romper o
vínculo poderoso. Parecia que entre a brilhante pupila negra da menina e a
lívida retina da cascavel se estabelecera uma corrente de luz na qual fazia-se
o fluxo e refluxo das centelhas elétricas.
A mesma
cambraia que retraiu o dorso flexuoso da boicininga espasmou o talhe grácil de
Berta, como se uma força única regera a vida nessas duas organizações. Aí
estava produzida ao vivo a misteriosa identificação da mulher e da serpente,
que deu tema ao poético mito da tentação.”
Berta, ao
contrário de fugir daquele medonho réptil, aproximou-se aos poucos, atraída por
uma força misteriosa. Estendeu-lhe o braço, permitindo que a cascavel viesse a
passear-lhe pelo pescoço, formando nele um colar. Com a cabeça entre a palma de
sua mão, a boicininga adormeceu, como se estivesse em estado de letargia
(entorpecimento).
Transe (IX)
Brás
consegue pular para dentro do quarto, arrancando violentamente a serpente que
enlaçava Berta. Fugia espavorido, agitando aquela serpente que lhe servia de
chicote contra o próprio corpo.
Despertada
do encanto que a prendia, Berta abre a porta; é abraçada por Linda e
interrogada por Afonso. Ainda calada, aponta para Brás que rompia o canavial
“vibrando seu látego vivo” (látego: chicote).
Enquanto
os irmãos se ocupam em observar o “idiota”, Berta esgueira-se pelo interior da
casa e desaparece.
Ela
precisava encontrar-se com Pai Quicé, pois ele a levaria ao esconderijo de Jão
Fera.
No fim do
canavial, o velho negro a esperava e, sem perder mais tempo, seguiram em
direção à campina e, quando já se encontravam no meio dela, ouviram um barulho
como se fosse um ribombo de imenso trovão e a terra começava a tremer debaixo
de seus pés; depois veio o barulho de ramas despedaçadas, de ossos quebrados e
grunhidos ferozes que apavoraram Pai Quicé. Ele reconheceu logo o que seria:
eram porcos-do-mato, caititus, conhecidos como “queixadas”.
Mais de
cem vinham debandados naquela direção, espantados pelos cães de Gonçalo Pinta e
Filipe que ali estavam em busca do bugre.
Berta
pensa em correr para alcançar uma árvore, mas sabe que Pai Quicé não poderá
acompanhá-la e ela recusa-se a abandoná-lo. O velho oferece-lhe os ombros para
retardar-lhe a morte quando os porcos os atacarem. Berta desespera-se,
estreita-se em suas roupas e aguarda seu triste fim...
A garrucha
(X)
“Resignada
ao martírio, Berta erguera os olhos ao céu, pedindo-lhe asilo para sua alma
pura prestes a desamparar a terra. Os porcos, removendo os queixos, já tocavam
com as cerdas do focinho o babado da saia, aflado pela brisa.
Retiniu,
porém, um brado espantoso, que reboou pelas crastas e penetrais da floresta
como o berro medonho do sucuri quando surge à flor do imenso lago. Pávidos
estancaram os queixadas, erguendo a tromba ao ar para conhecer donde provinha
aquela ameaça.”
Era Jão
Fera, que saindo do mato de repente, antecipava-se para salvar Berta e o velho
negro. Pisando sobre o próprio lombo das feras, alcançou Berta que fora suspendida
por ele com o braço esquerdo, enquanto usava o outro para defender-se com um
afiado punhal.
Quase
alcançando a árvore onde deixaria Berta em segurança, ouviu o grito dilacerante
de Pai Quicé. Berta exigia que o bugre a soltasse, pois precisava ajudar o
pobre que já estrebuchava. Vendo que a menina não desistiria de seu intento,
voltou. Estreitando Berta fortemente contra seu peito, e atacando o quanto
podia aqueles porcos, Jão aproximou-se de Pai Quicé, segurou-o pelo crânio, com
sua mão robusta e atirou-o longe, como se fosse uma pedra.
Degolando
e estripando os queixadas, conseguiu que Berta (ainda suspensa em seus ombros)
lhe passasse a garrucha e, armando-a com os próprios dentes, desfechou um tiro
que fez recuar rapidamente os porcos.
A furna
(XI)
O
narrador descreve o esconderijo de Jão Fera: uma caverna que se formara entre
uma rocha e o tronco de uma grande árvore que a envolvia. Jão teria acrescentado
uma pedra roliça para ajudar na sustentação, a qual servia também como parede.
No entanto, sabia que o lugar era frágil; a qualquer, hora tudo poderia ruir.
Chegando
à furna (gruta) com Berta nos ombros, o capanga parou. A menina então pode
revelar o que viera fazer. Avisou-o do perigo que ele corria, relatando os
planos de Gonçalo Pinta (Suçuarana). Jão Fera fixa nela um olhar penetrante e
sombrio. Precisava fugir, mas não podia! O contato daquele corpo junto ao seu,
despertava-lhe desejos incontroláveis, “como lava que ferve no meio dos pícaros
gelados dos Andes”. Controlou-se e seguiu adiante.
O assalto
(XII)
Um
bacorinho mensageiro (porquinho doméstico) aparece fossando os calcanhares de
Jão e ele entende logo aquele grunhido particular.Tomou Berta nos braços e
sumiu-se com ela na escuridão da caverna.
Daí a
instantes, Suçuarana e outros aparecem entre folhagens com suas espingardas
prontas para disparar.
Gonçalo,
depois de aguardar o bugre por muitos minutos; vendo que ele não saía da gruta,
começa a provocá-lo, pedindo que se entregasse, gritando que haveria de
cortar-lhe as orelhas.
De repente
uma pedra desprende-se do alto da rocha e assusta o grupo. Entendendo que Jão
Fera não se apresentaria para ser preso ou morto, resolveram buscá-lo dentro da
furna e Suçuarana ordenou o “assalto” (invasão); porém, nem ele, nem os outros
se animavam a avançar.
Depois de
uma hora, ouviram um tiro disparado do outro lado, acompanhado de um urro
medonho.
“Aquele
brado retroou pelos antros e solapas do rochedo, arrepiou os assaltantes e
encheu-os de horror e espanto, porque era em verdade um grito pavoroso de furor
e sanha.
Assim foi
com a fala trêmula e soturna que disse o Gonçalo aos companheiros:
- Está
seguro o bicho!”
A luta
(XIII)
O
narrador retoma o que teria acontecido quando Jão e Berta entraram na caverna.
Ele a olhava com desejo, pois relembrava Besita. Sentia que ela lhe pertencia.
Pensou até em fazer ruir a pedra de sustentação para unir-se eternamente à
Berta. Mas conteve sua obsessão, “arrastou
o calhau que obstruía uma solapa do rochedo, por onde a caverna se comunicava
com a próxima encosta, e fugiu horrorizado, levando consigo Berta.
Foi então
que vendo-o passar de relance pelo desfiladeiro, a gente de Filipe desfechou as
armas; e o capanga urrou de sanha e furor.
Por
atalhos só dele conhecidos, Jão ganhou a floresta e conduziu a menina até as
plantações da fazenda; aí despediu-se dela com estas palavras, proferidas em
profunda entonação:
- Nunca
mais, Nhazinha, ande só por estes matos.”
O beijo
(XIV)
Berta
regressa, atravessando os cafezais, cantando e dançando; já esquecida de tantas
aventuras do dia. Estava feliz por saber que Jão Fera não fora preso.
Distraída
em seus pensamentos, percebeu logo que estava sendo seguida e disparou numa
corrida, mas foi logo alcançada. Era Afonso que a agarrava às gargalhadas.
Ela
tentava desprender-se de seus braços, mas ele divertia-se. Beijou-lhe a face e
ela fechou os olhos. Diante do silêncio de Berta, Afonso intimidou-se e
afastou-se desencorajado.
Para
disfarçar o acanhamento, ele diz saber que ela não o quer bem. Ela explica que
gosta dele como gosta também de Miguel. São como irmãos para ela. O rapaz
aborrece-se, pois irmãos não se casavam. Berta acrescenta que Miguel e Linda é
que deveriam se casar, pois nasceram um para o outro. Ela segue sua caminhada,
pretende ir ao encontro de Linda, mas Afonso quer um beijo. Ela pede para que
ele feche os olhos, depois se aproxima o máximo e aplica-lhe um doído
“piparote” (peteleco) na orelha. Ela foge gargalhando satisfeita e ele; ele
fica calado e aborrecido. Berta volta e beija-lhe a face, deixando que Afonso
afague seus cabelos.
Miguel
aparece e assiste à cena.
Confissão
(XV)
Ofendido
e enciumado, Miguel nada dizia. Mas Berta, desembaraçada como era, pergunta o
que ele andava a fazer ali. Miguel avisa que todos em casa estavam preocupados
com o sumiço dela.
Afonso
convida Berta para seguirem ao encontro de Linda, mas Miguel sugere que ele vá
sozinho. Afonso parte, constrangido.
Berta
fica com Miguel e quer saber o porquê de mostrar-se tão grosseiro e aborrecido
com o amigo Afonso. Miguel esclarece seus sentimentos, mas Berta insiste que
ele deva gostar de Linda, o que o deixa enfurecido.
Em
seguida, Berta capricha em descrever os encantos da amiga:
“-
Escute, Miguel, disse Inhá pousando a mão carinhosa no ombro do moço para
retê-lo.
Você há
de gostar de Linda!... Me promete, sim? Você já gosta dela... Há quem possa
resistir àqueles olhos tão doces, que estão bebendo a alma da gente. E a
boquinha?... É um torrãozinho de açúcar escondido em uma rosa! Quando ela
ri-se, faz cócegas no coração! Do corpinho, nem se fala. Que cinturinha de
abelha! E um ar tão engraçado, um andar tão faceiro, que encanta!
Este
esboço, Inhá o fazia ao vivo, e não só com a palavra cintilante, mas com o
gesto animado, e o requebro do talhe esbelto. Era ela a própria cera, da qual a
sua mímica ia esculpindo a estátua famosa de Linda, com as doces inflexões das
formas, o terno volver dos olhos e o desbroche do mimoso sorriso.”
Depois
dessa descrição, Miguel sentia que amava aquela imagem desenhada por Berta,
pelas palavras dela. Inconscientemente foi acompanhando Berta que se dirigia á
casa de Linda. Ao chegarem um lugar cheio de folhagens, Berta percebeu os
risinhos de Linda que se aproximava. A amiga teria vindo ao seu encontro, pois
queria saber o porquê daquela demora. Encontrando-se com Afonso, esconderam-se
para esperar Berta que vinha chegando com Miguel. Disfarçando para Miguel não
ouvisse também, Berta conduziu-o para o lugar e sabendo que os amigos ouviam
sua conversa perguntou a Miguel:
“Então,
disse Berta para Miguel: confesse, você gosta de Linda?
- Gosto!
Respondeu o moço com um sorriso.
- Muito?
- Muito!
Voltou-se
Berta rapidamente e afastada a ramagem exclamou alegre, descobrindo o vulto de
Linda:
- Não lhe
disse, Linda? Veja que não a enganei.
Linda
corou; e Miguel nesse momento acreditou que a amava, pois a via ainda através
do sorriso fascinador de Inhá.”
PARTE IV
São João (I)
“No
terreiro das Palmas arde a grande fogueira.
É noite
de São João.
Noite das
sortes consoladoras, dos folguedos ao relento, dos brincados misteriosos.
Noite das
ceias opíparas, dos roletes de cana, dos milhos assados e tantos outros
regalos.
Noite,
enfim, dos mastros enramados, dos fogos de artifício, dos logros e
estrepolias.”
Depois de
uma descrição tipicamente romântica da festa de São João, o narrador apresenta
as diversões proporcionadas pela ocasião. Uma delas é a boneca de pólvora que
fica dependurada no alto de um mastro e em direção da qual os rapazes devem
atirar, com o intuito de atear-lhe fogo.
Dentro da
casa, as pessoas dançam, tiram a sorte ou conversam sobre os trabalhos das
fazendas.
Começa a
competição para que os rapazes acertem o coração de pólvora da boneca e Afonso
é o primeiro a atirar. Miguel opta por ser o último competidor e, chegando a
sua vez, não decepciona. Acerta em cheio o coração da boneca, fazendo Berta
virar piruetas de alegria, enquanto Linda fica séria, mas com o olhar embebido
no semblante de Miguel.
Cravo
Branco (II)
Enquanto
os rapazes se ocupavam agora com outra prova (alcançar no alto do mastro um
recipiente cheio de flores e frutos para presentear a namorada), Miguel e Linda
afastavam-se e param embaixo de uma palmeira.
Tímidos
ambos, afastados dos olhares curiosos, Linda pergunta a Miguel se ele não vai
participar da prova para conseguir uma flor. Ele pergunta a ela se deseja uma,
mas Linda mostra um crava que serve como broche, no corpo do vestido. Miguel
olha em direção ao colo de Linda e observa sua pele jovem e rosada.
Linda
pergunta a Miguel se ele sabe o significado daquele cravo. Ele diz não saber,
mas acaba por completar o sentido:
“Houve
uma pequena pausa, durante a qual a palavra adejou nos lábios de Miguel,
enquanto na alma de Linda já ressoava a sua doce melodia.
-
Casamento? balbuciou uma voz submissa.
Linda
velou-se em uma nuvem de rubor. Com a confusão, naturalmente escapou-lhe a
flor, que Miguel apanhou, e quis restituir; mas a mão trêmula da moça não
recebeu senão a doce pressão.
-
Quebrou-se o talo! disse ela rapidamente.
Era um
motivo para rejeitar a flor, que não podia mais prender no decote, e o pretexto
para dá-la ao moço em penhor de sua ternura. Fechando na palma o cravo, Miguel
levou-o aos lábios e o beijou com efusão.
Berta,
que a distância contemplava toda a cena com uma doce tinta de melancolia,
sentiu arfar-lhe o seio, estremecido como a rola em seu ninho. Mas a mão
comprimindo-o rápida, sufocou o turture queixume que se desprendia em um
suspiro.”
Revelação
(III)
Como
revela o narrador, Berta demonstra ciúmes ao observar sua amiga e Miguel em
clima de namoro. Vê Brás que rói um sabugo de milho cozido e dirige-se a ele
para distrair-se da cena, porém não resiste em prestar atenção no casal que lhe
era tão querido, mas que agora a fazia sofrer.
Berta
sabia o quanto ela mesma era responsável por aquele namoro que se iniciava.
Lapidou Miguel para ser um cavalheiro educado, quando percebeu que Linda
achava-o grosseiro; pintou Linda com as cores mais românticas, quando Miguel
não demonstrava interesse por ela. Agora Berta não entendia o porquê desse
sentimento que a angustiava e descobria que amava Miguel, verdadeiramente.
Distraída
em sua descoberta, Berta nem percebeu que Brás se afastara de sua companhia.
A lágrima
(IV)
“No vão
de uma janela conversava Luís Galvão com alguns de seus convidados, entre os
quais havia mais de um antigo camarada, rapaz de seu tempo.”
Neste
capítulo, D. Ermelinda ouve uma conversa entre seu marido Luis Galvão e os
amigos, que se encontravam embaixo da janela, por onde ela olhava, procurando
sua filha Linda.
A
conversa revelava um segredo do passado: o envolvimento de Luis Galvão com
Besita, “a filha do Guedes”. Decepcionada, ela sai apressadamente da janela,
pois além de ouvir isso, também avistou Linda que se mostrava muito próxima a
Miguel, em clima de intimidade, e ela era contra esse namoro da filha com um
moço pobre e sem estudos como ele.
Berta,
percebendo o que se passara, corre para avisar Linda, interpondo-se entre o
casal, disfarçadamente, para que D. Ermelinda não julgasse mal.
Agora os
três se ocupavam em assistir à loucura de Brás que, tentando alegrar o coração
de Berta, resolveu subir ao mastro para conseguir as flores para ela.
Dona
Ermelinda aproxima-se e pede à filha para não sair mais de perto dela, levando
assim a menina para dentro de casa.
Diante da
iluminação de um rojão, Berta observa a figura de Jão Fera, cuja sombra aparece
distante da festa.
O samba
(V)
Aqui o
narrador apresenta a festa que também acontece no grande pátio cercado de
senzalas, ambiente onde se reúnem os escravos, pajens, criados e feitores para
comemorar o dia de São João.
Ao lado
da fogueira, Monjolo dança e canta provocando as chamas. Todos riem, tomam
cachaça e divertem-se com a festa. Alguns feitores, como Mandu e Pereira, mais
à parte, tocam violão e contam histórias de caipira.
Uma
escrava chamada Florência aparece interessada em ver o pajem Amâncio. Ele é
namorado da mucama Rosa, que trabalha na casa das palmas. Quando ele chega,
Florência o provoca para dançarem juntos, porém Rosa não demora a aparecer e
flagra-os, puxando Amâncio pela camisa. As duas se desentendem: Florência cospe
na cara de Rosa e esta, por sua vez, desfere um tapa em cheio na cara da outra.
Amâncio, quando vê que as duas se agarram, toma partido pela namorada Rosa; os
escravos socorrem Florência e acaba-se a festa com um toque de recolher.
O
incêndio (VI)
Depois
que D. Ermelinda perde o ânimo e deixa de dar atenção aos convidados, estes
resolvem voltar mais cedo para casa.
Todos se
recolhem, mas D. Ermelinda demora-se a dormir. Pensava no modo como soubera das
aventuras passadas de Luis Galvão e sentia-se magoada, pois entendia que ela
não fora o seu primeiro amor e que ele poderia guardar um terrível segredo.
O marido
quer saber o que ela tem, mas D. Ermelinda responde que não é nada.
No
entanto, ouviram algumas batidas secas; Luis Galvão abre a janela e pensa ter
visto um vulto humano, mas acha que se enganara. Era Faustino que já havia
fechado os pajens e os capangas em seus aposentos, enquanto Monjolo também
roubava as chaves da senzala, prendendo lá os escravos. No meio do canavial a
primeira labareda se arremessava aos ares!
A traição
(VII)
“O
incêndio crescia com tal velocidade, que parecia uma catarata de fogo, a
inundar o espaço, ameaçando comunicar-se à floresta, e submergir a terra em um
pélago de chamas.
Do seio daquele
surdo rumor produzido pelo ressolho da labareda, se desprendeu e reboou ao
longe um grito soturno; mugir da turba espavorida antes as tremendas convulsões
da natureza.
-
Fogo!... fogo!... fogo!...
Correndo
à janela e abrindo-a outra vez, Luís Galvão recuou espantado com a viva
claridade, que o incêndio projetava sobre o terreiro e que lhe ferira os olhos.
Foi
rápido, porém, o deslumbramento. Debruçando-se no peitoril e descobrindo o foco
do incêndio que vomitava labaredas como a cratera de um vulcão, o fazendeiro
compenetrou-se imediatamente da realidade.
- O que
é? perguntou D. Ermelinda, que parara aterrada no meio do aposento.
- Fogo no
canavial.”
Luis
Galvão precipita-se para fora de casa, achando que poderia contar com a ajuda
dos capangas, pajens e escravos, mas eles todos se encontravam presos por
Monjolo e Faustino. Monjolo pensa em matar Faustino, para conseguir receber,
sozinho, a recompensa prometida por Barroso e poder ficar com a Rosa, mas
contém-se.
Afonso
desperta desesperado e vai ajudar o pai. De cima da janela, D. Ermelinda vê um
homem (Gonçalo Suçuarana) que sai do canavial e desfere um porrete na cabeça de
Luis Galvão. Ela desmaia e Linda solta um grito, pedindo socorro.
Vampiro
(VIII)
“Quando
Gonçalo se curvava para soerguer o corpo do fazendeiro e arremessá-lo no meio
das chamas, um vulto emergiu da sombra.
Jão Fera
estava em face dele.
Recuou o
Suçuarana de um salto, e sacou da cinta a pistola que desfechou sobre o inimigo
à queima-roupa. Não acertando o primeiro e segundo tiro, puxou da catana
(faca); e começou a esgrimi-la cortando o ar.
O capanga
avançava lento, mudo, sombrio, sem arma em punho, nem sequer um gesto de
ameaça; e, todavia, era ele Gonçalo, apesar de armado, quem recuava diante
daquele vulto impassível.”
Jão Fera
ficara sabendo dos planos por meio de Chico Tinguá e havia se preparado desde
cedo para impedir Barroso de cumprir sua vingança. Primeiro, conseguiu matar
Monjolo e Faustino; depois, chegou a tempo de estrangular Gonçalo e
arremessá-lo às chamas, antes que ele matasse Luis Galvão. Este assiste à cena
e entende que Jão salvou-lhe a vida, por isso agradece-lhe. Mas o bugre,
responde, secamente: “- Livrei-o de morrer, porque sou eu quem o há de
matar, quando chegar sua hora!”
Depois
disso, correu pelo canavial em busca do Barroso (Ribeiro) e encontrando-o não
tinha outro pensamento, ia matá-lo. Mas, nesse momento, Miguel, que voltara às
Palmas depois de ter visto as chamas na fazenda, impede o bugre de concluir o
seu intento. Jão Fera parte para cima de Miguel, mas chega Berta e sua presença
o faz recuar.
Na tapera
(IX)
Três dias
depois da festa e do incêndio, Berta segue em direção à tapera de Zana. No
caminho, Miguel a encontra e conta-lhe sobre a prisão de Jão Fera. Ela sente
pena do bugre, apesar de saber das atrocidades que cometera na noite de São
João e da tentativa de machucar Miguel.
Chegando
à tapera, Berta avista Zana que solta guinchos incompreensíveis, balançando os
braços de forma desesperada. Berta não tinha visto a figura do Ribeiro, que
aparecera no meio das folhagens, revelando-se com riso irônico para Zana. Berta
corria imenso perigo naquele momento. Frustrado pelo fato de não ter conseguido
matar Luis Galvão e sabendo da prisão de Jão Fera, Ribeiro volta para tentar
saciar o seu ódio. Reconhecendo em Berta a imagem de Besita, aguardava o melhor
momento para reviver a sua vingança. Esconde-se no mato, mas Zana fica a vigiar
no terreiro.
Alheia a
esse perigo, Berta mergulha em seus pensamentos a respeito de Miguel e Linda.
Sabendo que D. Ermelinda demonstrava-se contrária a esse relacionamento,
arriscava sonhar que poderia amar Miguel livremente, mas logo reprimia seu
desejo, considerando-o fruto de egoísmo.
Enquanto
isso, Ribeiro aproximava-se sorrateiro e Zana, sem poder defender a menina, solta
uma gargalhada insana que reboa pelo mato.
“Berta,
sobressaltada, ergueu a cabeça.”
A entrega
(X)
O
narrador relata neste capítulo os fatos paralelos que aconteciam a Jão Fera.
Ele iria entregar-se à prisão, apresentando-se ao tal Aguiar, depois que este
lhe pagasse os cinquenta mil réis. Antes de ir, dirigiu-se à casa de Nhá
Tudinha para despedir-se de Berta. Viu-a de longe, costurando, mas não se
animou a aproximar. Contemplou-a com adoração e partiu.
João Fera
sabia o quanto Berta o repugnava por causa de suas atrocidades e isso o fazia
sofrer. Se ao menos ele pudesse revelar toda a verdade e os segredos que sabia.
Enfim, ele parte para a fazenda de Aguiar, onde Felipe e seus camaradas se
encontram a sua espera.
Chegando,
é recebido com hostilidade. Ele avisa ao Aguiar que está se entregando por
vontade própria, por isso não admite que ninguém encoste as mãos nele.
Aguiar concorda. Chama-o para jantar com os outros, mas o bugre aceita apenas
um copo de aguardente.
Mais
tarde, os capangas de Filipe resolvem amarrá-lo para precaverem-se, o que
provoca irritação em Jão Fera. Com uma estaca do lugar, surra todos eles e
foge, acusando o pessoal de Aguiar de ter rompido o ajuste. Agora se sentia
livre para ir embora daquela fazenda e encaminha-se de volta a Santa Bárbara.
Na
verdade, ele preferia ter morrido nas mãos daqueles caipiras ou ter sido preso
em Campinas, assim evitaria de ter que encarar Berta e a indignação que ela
demonstrava ao vê-lo.
“Por
vezes parou, hesitando se devia retroceder.”
Cipó (XI)
Jão Fera
passa uma noite terrível de pesadelos e lembranças relacionadas à morte de
Besita. Misteriosamente, ele tem a sensação de ouvir a voz dela pedindo que
salvasse a filha. Ele desiste de dormir, entra pelo mato e chega até a casa de
Berta. Vê que tudo está em paz e regressa a sua furna, esperando que o dia
amanheça. Às seis horas, encaminhou-se para a tapera. Ali perto encontrou Brás
que se ocupava em fazer uma armadilha para tentar prender o bugre.
Jão,
sabendo das intenções sem razão de Brás, despreza-o, empurrando com o pé o que
o menino armara e passa irritado sem lhe dar atenção.
Chegou à
tapera exatamente no momento em que Zana havia soltado seu grito de desespero.
Ele viu, como há vinte anos, a mesma cena estampada na cara trágica da negra.
Mas, antes que Ribeiro estendesse o braço completamente e tocasse Berta, Jão
Fera arremessou-se a ele, tapando-lhe a boca e abafando-lhe o grito. Em
seguida, levou-o o para dentro do mato e quando Ribeiro já se encontrava
desmaiado, Jão Fera tirou-lhe a pele com as próprias garras.
No
entanto, Brás conduzira Berta até o local onde Jão Fera assassinava Ribeiro.
Berta deparou-se com o terrível espetáculo protagonizado pelo capanga e quase
desmaiou. Com as mãos ainda sujas de sangue, Jão dirigiu-se a ela e pediu
perdão, mas Berta ordenou-o que desaparecesse de sua frente para sempre. Puxou
um cipó e açoitou-lhe o rosto.
“O talhe
de Berta vibrou como uma seta brandida nos ares. Sua mãozinha delicada partiu
rápida a haste de um cipó, e com essa vergasta fustigou o rosto de Jão Fera.
Duas
lágrimas sulcaram as faces do facínora, e lavaram uma gota de sangue que aí
borbulhava.”
Despedida
(XII)
O
narrador focaliza a casa das Palmas. Linda surge à janela entristecida; Dona
Ermelinda mostra-se calada e preocupada. Luis Galvão, compreendendo aquele
silêncio, também se aborrece humilhado pelo olhar da esposa.
É
revelado que Luis Galvão tinha conhecimento de que Berta fosse sua filha e a
presença dela na casa das Palmas não o incomodava, ao contrário, fazia-o
lembrar-se de seu bom tempo de juventude. Preocupou-se com o futuro de Berta,
por isso no dia em que Dona Ermelinda tivera um mau pressentimento, antes que
ele fosse a Campinas, Galvão resolveu fazer um testamento, incluindo Berta como
filha legítima.
Luiz
Galvão propõe à esposa que viajem ao Rio de Janeiro. Dona Ermelinda aprova a
viagem, pois seria uma maneira de afastar Linda de Miguel e tentar esquecer-se
das histórias que a magoavam.
Linda
compreende que poderá ser o fim de seu sonho junto a Miguel e desespera-se. Ao
vê-lo perto da cerca da fazenda, sai da janela e dirige-se a ele. Conta ao
rapaz as intenções dos pais de viajarem à corte, mas antes que Miguel dissesse
algo, a mãe de Linda aproximou-se e pediu para que ele se despedisse dela, pois
Linda não poderia pertencer a ele jamais.
“O moço abraçou Linda e partiu
soluçando. A menina escondeu o pranto no seio da mãe, que a furto enxugava os
olhos.”
O Congo (XIII)
“A cidade
da Constituição, outrora vila da Piracicaba, assenta nas rampas de uma colina
que se enleva à margem do rio.
No
centro, e sobre a esplanada, fica a praça da matriz, cercada por bons
edifícios, entre os quais a veneração do povo aponta, como relíquia histórica,
a vasta casa que foi de Costa Carvalho, o ilustre marquês de Monte-Alegre.
Fronteira
à matriz, modesta igreja de uma torre, está a casa da câmara, construída ao uso
antigo, com seu campanário no meio e as enxovias ao rés do chão, inteiramente
isolada dos outros edifícios.”
Era
domingo e a família de Nhá Tudinha chegava para aproveitar a festa do Congo em
Piracicaba. Miguel apresentava-se triste, por isso Berta, conhecendo os
motivos, preferia calar-se diante dele.
Nesse
dia, ela vê Jão Fera na enxovia (tipo de cadeia pública gradeada, por trás da
qual ficavam expostos os presos). Ele havia se entregado depois do assassinato
de Ribeiro e da humilhação que Berta lhe fizera, chicoteando-lhe o rosto. Ela
sente-se culpada e enche-se de piedade. Resolve acenar para ele, mas ele não
retribui o aceno.
A escrava
Florência desfila como rainha do Congo, fazendo inveja para a mucama Rosa.
Aquela festa de caráter africano era patrocinada, de um lado, pelos escravos e,
do outro, pelos senhores que se empenhavam em exibir suas posses nas
vestimentas e cavalos usados pelos cativos.
Além dos
negros, outras figuras vestidas como índios garantiam um ar americanizado à
festa do Congo.
“Linda,
que via distraidamente passar a cavalgada, de repente estremeceu. Descobrira
defronte, na calçada, Miguel ao lado de Berta; e o ciúme lhe mordeu o coração.
A amiga, apesar do afastamento a que a obrigava a severidade de D. Ermelinda,
lhe fizera um gesto de adeus; mas ela voltou o rosto para não corresponder
àquela mostra de amizade.
Compreendeu
Berta o que sentia Linda; e insensivelmente arredou-se do moço.”
Confissão
(XIV)
Ainda na
festa, Afonso chama por Berta e ela resolve provocá-lo, brincando com ele para
amenizar os ciúmes de Linda. Berta pergunta a Afonso se Linda ainda pensa em
Miguel e ele responde que sim.
Um índio
Caiapó, que acompanhava a cavalgada, atravessou a rua e veio ao encontro de
Afonso e Berta. Parando diante deles, disse: - Teu pai matou a mãe dela; tu
queres matar a filha; e duas vezes!
Ao ver o
filho Afonso com Berta, Luis Galvão lembra-se com saudades de seu tempo de
rapaz, quando amava Besita.
Dona
Ermelinda, reparava na fisionomia do marido e adivinhava seus pensamentos,
porém, antes que falasse algo, o caiapó retornou e disse em alta voz a Luis
Galvão: - “Teu sangue mau quer matar teu
sangue bom! Toma cautela!...”
Do outro
lado, na praça da matriz, alguém avisava que um preso teria fugido da enxovia.
Essa notícia assustou a todos e a festa se desvaneceu.
A família
de Luis Galvão, todos montados cada qual em um cavalo, regressa a Santa Bárbara
D´Oeste. À beira da estrada, aparece um vulto negro. Era Zana que se
antepôs diante do cavalo de Afonso, pedindo desesperadamente que não matasse a
Nhazinha. Ficava claro que, na sua loucura, Zana confundia Afonso com o Luis
Galvão do passado. Ouvindo isso, Galvão determinou que deveria revelar todo o seu
segredo. Ordenando que os filhos seguissem adiante, chamou Dona Ermelinda para
segui-lo até a tapera e ali, confessou-lhe tudo.
A
enjeitada (XV)
Este
capítulo ocupa-se em narrar como Luis Galvão teria revelado todo o seu passado
a Dona Ermelinda e como decidiram juntos procurar Nhá Tudinha para que ela
ajudasse a contar à Berta que ela era filha dele. No entanto, o que narram para
Berta não corresponde à verdadeira história, pois inventam que Luis Galvão era
viúvo de Besita e ao casar-se pela segunda vez, teria omitido de Ermelinda
tanto o seu primeiro casamento como também a filha. Berta desconfia que algo
esteja errado e procura por Zana. Ao chegar à tapera, encontra Jão Fera que
havia fugido da cadeia na noite da festa do Congo e veio esperar por ela ali,
em busca de perdão.
Ele
implora e promete a ela nunca mais fazer maldades, arremessando ao mato as suas
armas. Berta o perdoa e pede para que ele conte sobre sua mãe Besita. O bugre
então narra com detalhes aquela história, desde o início, e Berta reconhece que
ele sim deveria ser o seu verdadeiro pai e não Luis Galvão, que será rejeitado
por ela. Finalmente, entende por que aquele homem agia com tanta crueldade e
despeito. Abraça-o com ternura, causando uma vertigem de emoção em Jão
Fera.
Alma sóror
(XVI)
No último
capítulo, Miguel, já preparado para partir com a família de Luis Galvão, vem
despedir-se de Berta que se encontra à sombra da varanda costurando uma camisa
para Jão. Aos seus pés também está Zana que a observa e, ao lado, o menino Brás
que a contempla. Ambos passam a morar com Berta. Jão ocupa-se em preparar a
terra com uma enxada para o futuro plantio de feijão. Ele agora trabalha para
Nhá Tudinha.
Miguel
haveria de estudar em São Paulo e dois anos depois se casaria com Linda.
Aproximou-se de Berta seguido dos olhares que a cercavam e tentou mais uma vez
convencê-la de que poderiam ser felizes juntos: ele poderia ficar com ela, ou
ela ir embora com ele. Mas Berta sabia que seu lugar era junto daqueles que
sofrem e recusa-se a partir. Abraça Miguel e pousa a cabeça ao ombro dele.
Nesse momento, Brás tem uma convulsão e cai se debatendo. Berta afasta-se de
Miguel para socorrer o menino, afagando-lhe os cabelos. Ela avisa a Brás que
ela é Til, e não será diferente disso. Ele entende e acalma-se. Miguel
parte para sempre, dizendo-lhe adeus...
“Nesse
instante Miguel voltou-se além, na extrema do caminho onde ia sumir-se, e a
brisa trouxe um eco de sua voz:
- Adeus,
Inhá!...
Os lábios
de Berta murmuraram frouxamente:
- Para
sempre!
Jão de pé
em face dela esmagava com os punhos as bagas que lhe saltavam dos olhos;
enquanto o peito lhe estertorava com o pranto que tentava sufocar.
Berta
pousou nele o seu brando olhar e disse-lhe com um sorriso:
- Vai
trabalhar, Jão!...
Entrou em
casa para consolar nhá Tudinha; e instantes depois se restabeleceu a cena
plácida e melancólica do começo da tarde.
Quando o
sol escondeu-se além, na cúpula da floresta, Berta ergueu-se ao doce lume do
crepúsculo, e com os olhos engolfados na primeira estrela, rezou a ave-maria,
que repetiam, ajoelhados a seus pés, o idiota, a louca e o facínora remido.
Como as
flores que nascem nos despenhadeiros e algares, onde não penetram os
esplendores da natureza, a alma de Berta fora criada para perfumar os abismos
da miséria, que se cavam nas almas, subvertidas pela desgraça.
Era a
flor da caridade, alma sóror."*
* (freira, santa).
FIM
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cartório sob a Lei dos Direitos Autorais. Assim, “é vedada a reprodução desta
aula — seja para fins didáticos ou comerciais — sem a devida autorização da
autora”. LEI Nº 9.610, de 19 de fevereiro, 1998.