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quinta-feira, 16 de maio de 2013
domingo, 14 de abril de 2013
VIAGENS NA MINHA TERRA, (Almeida Garrett)
RESUMO E ANÁLISE
(A prof.ª Luci Rocha oferece palestras especiais sobre as obras dos vestibulares, a partir deste segundo semestre. Entre em contato pelo e-mail curso_palavra@terra.com.br e agende uma aula. Dez alunos é o número mínimo).
ESTRUTURA
• Período Literário: Romantismo português
• Narrador: narrador-autor (o próprio Almeida Garrett durante sua viagem), e 3ª pessoa onisciente (romance de ficção)
• Linguagem: fluente, elevada, elegante, selecionada, com tom irônico e moderno.
• Tempo/espaço: Escrita em 1843 e publicada em 1846, resgata um passado referente à guerra civil portuguesa, que aconteceu entre 1832 e 1834, em Portugal.
• Classificação: misto de relato de viagem, história e ficção romântica.
RECURSOS LITERÁRIOS
• Digressões: efeito de romper a continuidade de um discurso com uma mudança de tema intencionada.
• Intertextualidade: citações de outros autores e obras dentro de seu texto;
• Metalinguagem: referências sobre a própria obra, “o fazer literário”;
• Leitor incluso: diálogo constante com o leitor.
Essa obra apresenta alguns aspectos importantes: A guerra civil portuguesa (1832/1834), o papel do autor enquanto um cidadão engajado na sociedade de seu tempo, uma viagem realizada pelo autor ao Vale de Santarém (1843), várias viagens digressivas durante o percurso real; um romance de ficção em 3ª pessoa envolvendo Carlos e Joaninha (1832); uma carta de Carlos a Joaninha, que explica e aprofunda a natureza volúvel e contraditória desse rapaz.
A guerra civil portuguesa
No ano de 1820 eclodiu a Revolução Liberal do Porto. Depois de algumas vitórias militares, os liberais fizeram uma série de exigências: o imediato retorno do rei, o juramento do soberano sobre as bases da futura Constituição , ainda, o retorno do Brasil à condição de colônia. Mas o grande país americano decidiu seguir seus próprios caminhos, desligando-se da antiga metrópole: em 7 de setembro de 1822, o Brasil declarou a sua independência. Apesar desse duro golpe, os liberais lusitanos assinaram a Constituição de 1822, conhecida como Constituição Vintista – texto de forte caráter liberal que acabava com diversos privilégios de origem feudal e contrariava firmemente os interesses das ordens eclesiásticas instaladas no país. Entretanto, os absolutistas não se deram por vencidos. Buscaram apoio junto á rainha Carlota Joaquina e ao filho dela, D. Miguel, empreendendo uma luta para restaurar o seu poder.
Em 1823, D. Miguel e os absolutistas pegaram em armas em Vila Franca de Xira, fizeram uma contrarrevolta e tomaram novamente o poder, no episódio conhecido como “Vilafrancada”. D. João VI, por sua vez, contrariando os ímpetos absolutistas da esposa e do filho, prometeu uma Constituição menos radicalmente liberal, estabelecendo o que seria um “absolutismo moderado”.
Em 1826, morre D. João VI, deixando como herdeiro natural, seu filho D. Pedro, Imperador do Brasil. Porém, visando uma política de conciliação, Pedro abdicou da coroa portuguesa em nome de sua filha Maria da Glória – então com apenas sete anos de idade – com a condição de ela se casar com seu tio D. Miguel. Já nomeado D. Pedro IV de Portugal, ele revogou a Constituição de 1822 e outorgou a Carta Constitucional de 1826, de caráter bem menos radical que o da constituição vintista, um verdadeiro meio termo entre os liberais e os absolutistas. D. Miguel aceitou o que o irmão impusera e no final de 1827 realizou os esponsais – espécie de contrato com promessa de casamento – com a sobrinha. Não contente de estar no poder, D. Miguel quer ser o monarca de Portugal. Apoiado por suas facções, é finalmente aclamado rei em maio de 1828, e promove intensa perseguição a seus inimigos políticos, os democratas, os constitucionalistas, os liberais, enfim todos os que representavam influência de ideologia francesa ou inglesa. Mas a resistência contra D. Miguel vai crescendo, a partir de seu próprio irmão, que, já em 1832, vai à ilha Terceira (Açores) reunir-se aos revoltosos. Iniciou-se então uma guerra civil que durou quatro anos e que só terminaria com as batalhas de Almoster (fevereiro de 1834) e Asseiceira (maio de 1834). Vencem, finalmente, os constitucionalistas, e Garrett, fazendo parte desse grupo dos liberais, terá importantes tarefas de reconstrução cultural e moral de seu país.
Almeida Garrett na sociedade de seu tempo
Escritor e político português. Nasceu no Porto, onde passou a infância até 1804, ano em que a família se mudou para a Quinta do Castelo, na margem sul do Douro, sob a vigilância e cuidados de duas criadas (Brígida e Rosa de Lima). Estas duas figuras terão despertado nele o gosto pela cultura popular, que se refletiu, mais tarde, na recolha de textos populares do Romanceiro ou na criação de personagens que ilustram a mentalidade e sabedoria populares, como por exemplo o Telmo, de Frei Luís de Sousa. As invasões francesas, na primeira década do século XIX (1809), obrigaram a família, pertencente à burguesia próspera e letrada, a refugiar-se na sua propriedade da ilha Terceira (Açores). Ingressou, em 1816, na Faculdade de Direito de Coimbra, depois de ter recebido a influência eclesiástica do tio e educador. Aderiu aos ideais do liberalismo que então ganharam terreno, apoiando, em 1820, a Revolução Liberal.
Datam já desse período as suas primeiras publicações. Terminado o curso em 1821, ocupou alguns cargos públicos, mas, em 1823, o golpe da Vila-Francada levou-o, juntamente com a mulher, Luísa Midosi, com quem casara em 1822, a procurar refúgio em Inglaterra, e depois em França. O contato com a cultura e a literatura inglesas determinaram a sua atividade literária posterior. Os seus poemas «Camões» (1825) e «D. Branca» (1826), considerados como os marcos introdutórios do Romantismo em Portugal, datam deste período.
Regressou a Portugal em 1826, destacando-se então pela sua atividade jornalística. A restauração do absolutismo, em 1828, fê-lo regressar a Inglaterra, de onde voltaria, em 1832, para tomar parte no desembarque do Mindelo. Restaurado o constitucionalismo, foi cônsul e responsável pelos negócios de Portugal na Bélgica (1834-36). Em 1836, de regresso a Portugal, divorciou-se de Luísa Midosi. Passos Manuel, então na chefia do governo, convidou-o a elaborar um plano de criação de um teatro nacional, que Garrett concretizou com a criação do Teatro Nacional (D. Maria II), do Conservatório de Arte Dramática e com o desenvolvimento de um repertório dramático, de que o próprio escritor se encarregou. Em 1841 nasceu a sua filha, Maria Adelaide, fruto da sua ligação com Maria Adelaide Pastor, que morreu nesse mesmo ano, deixando Garrett a braços com a situação de ilegitimidade da filha, que muito o preocupou e se refletiu até, ao que se crê, em obras suas, nomeadamente na criação da figura de Maria, de Frei Luís de Sousa.
A sua carreira na política e na vida pública nacional foi interrompida pela subida ao poder de Costa Cabral, que o demitiu do cargo de Inspetor-Geral dos Teatros e proibiu a representação da peça Frei Luís de Sousa, por ver, nesta, alusões críticas à situação política então vivida no país. Em 1851, ano em que se tornou par do reino, fundou o jornal A Regeneração. Ministro dos negócios estrangeiros em 1852, foi-lhe atribuído, dois anos mais tarde, por D. Pedro V, o título de visconde. Afasta-se da vida pública e falece no ano de 1854, em decorrência de um câncer.
Em vida, Almeida Garrett desdobrou-se em múltiplas atividades: orador parlamentar (ficaram célebres alguns dos seus discursos), ensaísta literário, folclorista, político, jornalista e jurista. A sua personalidade exuberante ficou marcada na história política e cultural do país.
Como escritor, a sua formação foi basicamente arcádica, evoluindo para moldes românticos a partir da sua estadia em Inglaterra. O ideal de intervenção cívica refletiu-se na sua criação literária, particularmente através dos dramas históricos (O Alfageme de Santarém, 1842, entre outros) e dos poemas da fase arcádica. Este ideal está também patente nas Viagens na Minha Terra (1846), obra fundamental da prosa novelística portuguesa. Aqui se confrontam, no contexto histórico português da época, o liberalismo e o conservadorismo políticos e, no contexto literário, os valores clássicos e românticos, regionalistas, nacionalistas e universalistas. Esta obra, de intuito pedagógico evidente, denuncia, numa viagem simultaneamente no tempo (ao passado, de que se recuperam acontecimentos exemplares de espírito nacionalista e se contestam outros) e no espaço nacional, uma atitude crítica relativamente ao presente. Os preceitos românticos de aproximação à realidade e de espontaneidade do discurso, o característico hibridismo de gêneros, tons e registros de língua, a denúncia do convencionalismo de escolas, sejam elas clássicas ou românticas, a afirmação de individualismo e inteira liberdade do autor face a essas mesmas escolas, são alguns dos aspectos mais marcantes desta obra, incontornável no estudo da modernização da prosa portuguesa.
Defendendo que o contacto com as fontes nacionais populares era essencial à vitalidade da literatura, Almeida Garrett levou a cabo uma regeneração da língua, conferindo-lhe uma naturalidade de que esta carecia e aproximando-a da oralidade.
A viagem de Garrett a Santarém, em 1843, e alguns aspectos das digressões do autor
A princípio, a obra refere-se a um passeio verídico feito pelo autor, a convite de seu amigo, Passos Manuel, ao Vale de Santarém, na província do Ribatejo, em 17 de julho, de 1843.
O autor decide registrar suas impressões durante o percurso de Lisboa a Santarém (Lisboa, Alhandra, Vila Franca de Xira, Azambuja, Cartaxo, Vale de Santarém e Santarém), numa distância de 87 quilômetros que, naquela época, realizado um pouco a barco, outro em carruagem e terminado ao lombo de uma mula, tornava-se bastante árduo e trabalhoso.
Além dessa viagem física que possibilitará ao autor fazer várias considerações geográficas sobre aquela região visitada, as “viagens” referem-se, principalmente, às reflexões sentimentais, literárias, filosóficas, políticas, econômicas, sociais, morais e cotidianas que ele realiza durante o percurso.
Inicia cada capítulo com uma pequeno resumo do que será tratado: “De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas suas viagens. Parte para Santarém. Chega ao terreiro do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede. A Dedução Cronológica e a Baixa de Lisboa. Lorde Byron e um bom charuto. Travam-se de razões os ilhavos e os Bordas-d'Água: os da calça larga levam a melhor.”
Elogiando o clima e a natureza de seu país, considera que não bastava a ele viajar apenas pelo quarto, como o fez o escritor francês Xavier de Maistre, em sua obra “Viagens à volta de meu quarto”; porém afirma que sua proposta apresenta-se mais ousada.
“Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.”
“Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crônica.”
“São 17 deste mês de Julho, ano de graça de 1843”
Almeida relata que no dia determinado, chega bem cedo ao lugar de onde partiria com mais alguns amigos.
Embarcam e vão apreciando de um lado o Rio Tejo; do outro, a natureza, palácios e mosteiros que o narrador concorda que são lugares belos, tanto quanto Belém.
Passam por Alhandra, uma freguesia no Concelho de Vila Franca de Xira. Nesse ponto, Almeida faz uma pequena crítica ao regime da Restauração, porém ameniza, afirmando que não tem nada contra essa vila ou contra quem lá fez a monarquia.
Convida os leitores a acender seus charutos e cita Lord Byron, que, segundo o que o narrador pôde saber, nunca teria fumado a bordo.
Encontram um camponês fumando; pensa em pedir-lhe fogo, porém um outro ofereceu-lhe. A partir daí, Almeida narra uma disputa entre dois grupos: de um lado, o do campeiro, considerava-se mais forte por segurar um touro à unha; do outro, os ilhavos, achavam-se mais valentes por brigar com o mar, oito ou dez dias a fio, numa tormenta. Queriam saber qual deles era mais forte. Os do mar acabaram convencendo, e o público aplaudiu o ílhavo e os campinos ficaram de cabeça baixa.
O narrador explica que suas viagens hão de ser “uma obra prima, erudita, brilhante, de pensamentos novos”; não uma brincadeira.
Lembra-se de um filósofo que teria escrito uma obra sobre a marcha da civilização, do intelecto, cujos princípios estariam pautados em dois princípios básicos: o espiritualista, personificado em D. Quixote; e os materialista, cuja figura central seria Sancho Pança, personagens da obra de Miguel de Cervantes.
Garrett afirma que em a sua viagem Tejo acima está “simbolizada a marcha do progresso”. Chegam, ele e seus amigos, à Vila Nova da Rainha, um lugar muito feio, segundo ele.
Explica que, a partir dali, hão de seguir viagem em montaria. Observa as mulas nas quais irão e brinca dizendo que elas parecem mais elegantes do que carruagens francesas.
Dali, seguem até Azambuja, na carruagem de um amigo. Enquanto isso vai tecendo críticas em relação às estradas de Portugal. Considera que os ministros responsáveis por elas deveriam ser obrigados a utilizá-las, viajando pelo menos duas vezes por ano.
Enfim, chegam e param em uma pousada: misto de hotel e café. Assusta-se com uma feia mulher à porta, a quem ele chama de bruxa, caindo-lhe a caneta da mão. “Cai-me a pena da mão!”
Utilizando-se dos recursos de metalinguagem e de leitor incluso, Almeida Garret (autor-narrador) continua seu processo narrativo:
“Vou desapontar decerto o leitor benévolo; vou perder, pela minha fatal sinceridade, quanto em seu conceito tinha adquirido nos dois primeiros capítulos desta interessante viagem”.
Continua a narrativa ironizando o estilo romântico (“século das fortes sensações”). Voltando ao assunto da estalagem que encontra, pergunta o que seria ela, num tempo em que um autor como Vitor Hugo; a obra Os mistérios de Paris, de Gautier; e Fausto, de Goethe andam nas mãos e na cabeça de todos?
Apresenta uma paródia dos versos do poeta latino Alceu referindo-se a dois atenienses que teriam assassinado um tirano. Em seguida, sugere que se plantem batatas e que se pavimentem estradas, que se compre, que se venda, que se agiote; e então, pergunta “aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?
Conclui esse raciocínio, fazendo uma crítica à ciência do seu século.
Depois de tentar, de forma insistentemente erudita, definir a estalagem como clássica ou romântica, parte o narrador para explicar sobre a figura da velha a quem ele chamou de bruxa, já que ela se encontrava suja e maltrapilha à porta daquela asquerosa casa.
Junto da velha, estaria uma moça, tão nojenta quanto à primeira, e um velho meio paralítico que bebia. Tomaram uma limonada e partiram em direção “ao famoso pinhal da Azambuja”.
O autor inicia o capítulo III fazendo uma apologia à modéstia que, para ele, tem mais valor do que a inocência. Para isso, confronta um filósofo grego, Démades, com um inglês, Addison. O primeiro teria sido a favor da inocência: “Da beleza e virtude é a cidadela/ da inocência primeiro – e depois ela”; o outro, como o narrador, defendia a modéstia. Segue o narrador elogiando as mulheres modestas e condenando as maliciosas. Em meio a essas reflexões, chega ao famoso “Pinhal de Azambuja”.
Reconhece que é um homem dado a sonhar acordado e sujeito a distrações, quase um sonâmbulo. Aconselha, por fim, que o leitor salte a página, e siga ao próximo capítulo.
Espanta-se o narrador com a paisagem a qual chamavam “Pinhal de Azambuja”. Depois de tanto ouvir falar desse local, de ter fantasiado tantas personagens fazendo parte dele, constata que não passa de “uns poucos pinheiros rasos e enfezados”. Segue o capítulo, decepcionado com o cenário e, em um ataque de despeito, revela como a literatura romântica tem sido elaborada:
Sim, leitor benévolo, e por esta ocasião te vou explicar como nós hoje em dia fazemos a nossa literatura. Já me não importa guardar segredo, depois desta desgraça não me importa já nada. Saberás pois, ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler.
Trata-se de um romance, de um drama — cuidas que vamos estudar a história, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulcros, os edifícios, as memórias da época? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós o somos. Desenhar caracteres e situações do vivo da natureza, colori-los das cores verdadeiras da história... isso é trabalho difícil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e sobretudo tacto!... Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico.
Todo o drama e todo o romance precisa de:
Uma ou duas damas, mais ou menos ingênuas.
Um pai — nobre ou ignóbil.
Dois ou três filhos, de dezenove a trinta anos.
Um criado velho.
Um monstro, encarregado de fazer as maldades.
Vários tratantes, e algumas pessoas capazes para intermédios e centros.
Ora bem; vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eug. Sue, de Vítor Hugo, e recorta a gente, de cada um deles, as figuras que precisa, gruda-as sobre uma folha de papel da cor da moda, verde, pardo, azul — como fazem as raparigas inglesas aos seus álbuns e scrapbooks; forma com elas os grupos e situações que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se às crônicas, tiram-se uns poucos de nomes e de palavrões velhos; com os nomes crismam-se os figurões, com os palavrões iluminam-se... (estilo de pintor pinta-monos). — E aqui está como nós fazemos a nossa literatura original.
Depois dessas revelações, Garrett declara que tiveram que seguir o resto da viagem até Santarém em uma mulinha asneira, pois a carruagem que lhes servia de condução havia se quebrado. Monta na mula e percebe que ela tem um “confortável e ameníssimo chouto” (trote). Aproveita para rememorar um amigo, o marquês D. Domingos Antônio de Sousa Coutinho, um português que o autor teria conhecido em Paris. Esse marquês tinha a mania de trotar. Trocava as caríssimas e confortáveis carruagens inglesas, por um duro cabriolé de praça, apenas para sentir o trote do animal. Enfim, ele termina o capítulo convidando: “Piquemos para o Cartaxo que são horas”.
Inicia um novo capítulo (VI) com uma consideração a respeito do embate entre o Cristianismo e o Paganismo (“Teologia x Mitologia”) na obra os Lusíadas, de Camões. O autor chega a concordar que aquilo era uma “sensaboria”, mas devido ao seu pendor nacionalista, toma o partido do grande poeta renascentista, que ao menos tinha fé na pátria. Anima-se a querer falar com Marquês de Pombal, que se encontrava já no reino das sombras e, divagando, imagina-se diante dele a perguntar-lhe por que ele teria mandado arrancar as vinhas do Ribatejo:
— “Para que mandou V. Ex.a arrancar as vinhas do Ribatejo?”
Apertou a luneta no sobrolho e sorriu-se.
— “Elas aí estão centuplicadas, que até já invadiram o pinhal de Azambuja. Fez V. Ex.a um despotismo inútil, e agora...”
— “Agora quem bebe por lá todo esse vinho?
Depois desse devaneio, o narrador acorda e vê que chegou ao Cartaxo.
Os viajantes apeam de suas mulas chouteiras e entram em um café. Garrett inicia então uma série de considerações irônicas a respeito do lugar. Afirma que o mais elegante café de Paris ou o mais agradável dos passeios feitos em carruagens inglesas não seriam capazes de conferir-lhe o prazer que experimentou ao descer daquela mula e sentar-se em um banco rústico daquele lugar simples no Cartaxo. Provoca o leitor português, dizendo que se ele viajasse mais, poderia saber a diferença entre um café e outro. Acrescenta que qualquer pessoa mais culta e viajada poderia conhecer rapidamente a cultura de um país, depois de estar em um café do lugar. Afirma ainda que ele seria bem capaz disso.
Estabelece uma conversa com o dono do estabelecimento, depois saem para observar o lugar. Mostra-se simpatizado com o que vê. Cartaxo não tem história antiga, mas a tem moderna e importantíssima, segundo ele.
Entre Cartaxo e Santarém há uma charneca (terreno arenoso com arbustos esparsos e sem plantações. Esse ambiente selvagem acende o amor do poeta pelo país. No meio daqueles espaços amplos, o seu sentir ultrapassa o seu pensar; e ele mostra-se enfim, plenamente romântico. Porém, um dos colegas de viagem nota que naquele lugar aconteceu, durante a Guerra Civil, a “última revista do imperador”, o que o faz pensar na Guerra e no quanto de sangue teria sido derramado por conta dela.
Melancólico, chegam à Ponte da Asseca (uma ponte de 104m que liga Cartaxo a Santarém). Lembra que desde pequena fora liberal: ainda criança, ao invés de comprar numa feira pequenas bugigangas, preferiu comprar um retrato de Napoleão Bonaparte.
“Quem me diria quando, por esse primeiro pecado político da minha infância, por esse primeiro tratamento duro, e — perdoe-me a respeitada memória de meu santo pai! — injustíssimo, que me trouxe o mero instinto das ideias liberais, quem me diria que eu havia de ser perseguido por elas toda a vida! que apenas saído da puberdade havia de ir a essa mesma França, à pátria desses homens e dessas ideias com que a minha natureza simpatizava sem saber porquê, buscar asilo e guarida?
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Benévolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda é consciência, um resto de consciência: acabemos com estas digressões* e perenais divagações minhas. Bem vejo que te deixei parado à minha espera no meio da ponte da Asseca. Perdoa-me por quem és, demos de espora às mulinhas, e vamos que são horas!”
Nesse ponto, inicia a descrição do Vale de Santarém e a história de amor entre Carlos e Joaninha, narrada por um dos amigos do autor.
Depois de ouvir a história quase inteira, chega a Santarém. A primeira impressão prometia grandes decepções: “tudo indicava as vizinhanças de uma povoação descaída e desamparada, concluindo que aquelas construções eram símbolos da degeneração arquitetônica de seu país.
Já era noite quando o autor vai procurar a fortaleza onde morava seu amigo Passos Manuel (líder da revolução setembrista). Relata a dificuldade que teve para encontrar a moradia de seu anfitrião, pois se achou diante de uma cidade arrasada, cheia de entulhos e pardieiros. Constata que o portugueses, impensadamente, estavam destruindo seu patrimônio, com tantas reformas em construções históricas valiosas (“Nos reparos e reconstruções dos templos antigos é que este péssimo estilo, esta ausência de todo estilo, de toda a arte mais ofende e escandaliza”). Seu amigo morava em um lugar onde fora, nada mais nada menos, o Palácio do primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques de Borgonha. Contudo, nenhum sinal dessa grandeza histórica era perceptível. No outro dia, mais descansado, Garrett depara-se com um cenário deslumbrante:
“Nunca dormi tão regalado sono em minha vida. Acordei no outro dia ao repicar incessante e apressurado dos sinos da Alcáçova. Saltei da cama, fui à janela, e dei com o mais belo, o mais grandioso, e, ao mesmo tempo, mais ameno quadro em que ainda pus os meus olhos.
No fundo de um largo vale aprazível e sereno, está o sossegado leito do Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se cobre de água junto às margens, donde se debruçam verdes e frescos ainda os salgueiros que as ornam e defendem. Dalém do rio, com os pés no pingue nateiro daquelas terras aluviais, os ricos olivedos de Alpiarça e Almeirim; depois a vila de D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas. Daquém a imensa planície dita do Rossio, semeada de casas, de aldeias, de hortas, de grupos de árvores silvestres, de pomares. Mais para a raiz do monte em cujo cimo estou, o pitoresco bairro da Ribeira com as suas casas e as suas igrejas, tão graciosas vistas daqui, a sua cruz de Santa Iria e as memórias romanescas do seu alfageme.”
Aproveita para contar uma história do folclore popular de Portugal sobre a origem do nome de Santarém: uma virgem, de nome Iria (Irene) teria sido violentada e degolada por um romeiro, que ficara hospedado na casa de sua família.
Depois de muitas decepções, e indignado com tanta depredação histórica e cultural, o autor resolve regressar a Lisboa. Antes, passa pelo Vale de Santarém e encontra-se com dois personagens do romance que ouvira: Frei Dinis e D. Francisca. Trava uma conversa com Frei Dinis e fica sabendo o que teria acontecido com os outros.
Um romance de ficção
Em meio a essas digressões* (efeito de romper a continuidade de um discurso com uma mudança de tema intencionada ou uma reflexão baseada em um flashback), surge uma história romântica envolvendo as personagens alegóricas: Carlos, sua prima Joaninha (“a menina dos rouxinóis”), Irmã Francisca, Frei Dinis e Georgina, todos representando, metaforicamente, uma realidade de Portugal em seu presente ou em seu passado.
Ao chegar ao Vale de Santarém, o autor observa uma janela. Lá imagina que haja um vulto de mulher. Idealiza-a de olhos pretos. Pronuncia em voz alta a cor desses olhos, mas um amigo de viagem corrige-o. Sim, ali houve uma mulher; na verdade uma menina, conhecida como “menina dos rouxinóis”, mas ela tinha os olhos verdes como esmeraldas, seu nome era Joaninha. O Romance resume-se na intricada história de uma velhinha com sua neta Joaninha. Ela era órfã de pai e mãe e tinha por si só a avó. Todas as semanas, um certo Frei Dinis vinha visitá-las e, algumas vezes, trazia notícias de Carlos, seu primo, que já há algum tempo, fazia parte do séquito de D. Pedro (liberais). O filho falecido de D. Francisca fora pai de Joaninha; a filha dessa velha fora mãe de Carlos. Passara o ano de 1830, Carlos formara-se em Coimbra, e só então visitou a família, mas com muitas reticências em relação à avó e Frei Dinis. Carlos também pressentia que ele e a avó mantinham um segredo. Carlos, nas suas andanças, já tinha escolhido uma fidalga para ele, D. Georgina, moça inglesa de fino trato. No entanto, a guerra civil progredia, eram meados de 1833 e ele alista-se. Os Constitucionalistas tinham tomado a Esquadra de D. Miguel, Lisboa estava em poder deles e Carlos era um dos guerreiros da parte liberal (Constitucional). Em 11 de Outubro, os soldados estão todos por volta de Lisboa, as tropas constitucionais vinham ao encalço das absolutistas e, na batalha sangrenta, muitos ficaram feridos. A casa de Joaninha foi tomada por soldados absolutistas (miguelistas), que vigiavam a passagem dos Constitucionais. Numa tarde, depois de passar pelos soldados, os quais aprenderam a respeitá-la, Joaninha resolve passear entre várias árvores. Encontrando um lugar fresco e tranquilo, ela adormece, ouvindo o cantar dos rouxinóis.
Um oficial constitucional recém-chegado de Lisboa entrou cautelosamente embaixo daquelas árvores e se deparou com o quadro tocante. Era Carlos, que regressava ao Vale. Reconhecendo a prima, a quem deixara com ar infantil há dois anos. Ele segura em sua mão e desperta-a. A princípio, Joaninha pensa que seja um sonho, porém recupera-se do excesso de emoção e ambos se beijam calorosamente. Ela contou a Carlos sobre a cegueira da avó, sobre seus sofrimentos e, escondidos dos sentinelas, despedem-se, prometendo verem-se no mesmo lugar, no dia seguinte.Ele pede que não diga a ninguém sobre sua chegada ao Vale. Só que Carlos sabia que Georgina o esperava, e a sua mente tornou-se confusa, pois já não sabia se amava Georgina.
No dia seguinte, Carlos vai ao encontro, porém suas atitudes frias fazem Joaninha desconfiar que ele não a ama. Ela deseja que ele vá visitar a pobre velha, mas Carlos mente dizendo que não poderia sair sem autorização de seu superior. Joana então se antecipa em dizer-lhe que ele deva ter uma mulher a quem ama, mas ele nega.
Fazendo referência à sangrenta batalha de Almoster (18 de fevereiro de 1834), na qual os liberais saem vitoriosos, o narrador revela que Carlos fora ferido gravemente. Primeiro fora levado a um hospital de Santarém, mas depois acordou em uma cama de limpos lençóis, onde duas pessoas cuidavam dele: uma elegante jovem loira de olhos azuis e um velho que se retirava quando percebia que Carlos poderia despertar: era Georgina e Frei Dinis. Ela, depois de alguns dias, vendo-o recuperado, diz que haverá de partir, pois ele precisa regressar aos seus familiares. Revela que D. Francisca e Joaninha não sabem de sua situação e que Frei Dinis também está ali a cuidar dele. Carlos fica decepcionado. Ela diz que não o ama mais e que sabia do amor dele por Joaninha. Ele defende-se e amaldiçoa o velho Frei Dinis. Este entra para defender-se, pois estava no quarto ao lado.
Carlos esbraveja contra Frei Dinis, fica em estado de fúria e acusa-o de ter matado seu pai e cegado sua avó. O velho confirma o assassinato e pede perdão por ele e pela mãe de Carlos, de quem fora amante.
O moço não contém a sua fúria, lança mão de um candeeiro e parte para vingar-se de Frei Dinis. Este lhe estende a cabeça, numa atitude suicida, dizendo que ele poderá matá-lo, pois já pagou demais pelos seus crimes. No segundo que antecipava a tragédia, entra no recinto D. Francisca e Joaninha. A velha grita que aquele homem era seu pai! Georgina, não se sentindo mais parte da cena, retira-se para sempre.
Carlos desfalece diante da revelação. Frei Dinis explica tudo: Ele era amante da mãe de Carlos. Um dia, o marido dela e o cunhado (pai de Joaninha e filho de D. Francisca) se juntaram para assassiná-lo. Ele, no escuro, conseguiu defender-se e matou a ambos. Quando foi desfazer-se dos corpos, atirando-os ao Tejo, reconheceu-os. Desde esse dia, a agonia veio tomar conta dele: revelou tudo à amante que morreu de desgosto, não bastando, ainda contou à velha Francisca, a qual cegou de tanto chorar pelo filho assassinado (pai de Joaninha) e pela filha morta (mãe de Carlos), Dinis refugiou-se num convento para tentar livrar-se da culpa que não o largava. Quase tudo que tinha, passou para o nome de D. Francisca e tornou-se um Frei Franciscano dos mais rigorosos e penitentes.
Quando terminou de narrar sua história, Carlos abraçou a avó e o pai em silêncio e saiu dizendo que voltaria logo. Não voltou. Três dias depois, Joaninha recebeu uma carta de Carlos.
A carta de Carlos à Joaninha
Na sua longa carta à prima, em que procura justificar-se, Carlos faz uma reflexão em torno daquilo que teria sido seu passado recente e, em nome disso, quer obter o perdão dela. Começa por contar-lhe que havia conhecido em Inglaterra, numa propriedade rural onde ficara hospedado, três formosas irmãs, a quem se afeiçoara e a quem “flertava” com frequência. E eis que Carlos se apaixona por uma delas, Laura. Porém esta não poderia ser sua noiva, pois já estava prometida a um capitão da Companhia Britânica das Índias Orientais. No dia em que Laura parte para prepara-se para seu casamento, Carlos entra em tristeza profunda e afasta-se da casa das amigas. No entanto, outra irmã, Júlia, faz o papel da conselheira e amiga, mantendo-o a par das notícias sobre Laura, até que esta finalmente se casasse. Ele conta que Júlia acaba por cativá-lo tanto que chega a considerar a ideia de estar apaixonado por ela. Para recuperar-se da decepção amorosa, resolve retirar-se para Londres, onde fica por um tempo. Volta ao condado (lugar onde moravam as moças) porque Júlia escreve-lhe insistentemente. Ao regressar, antes que entre na propriedade, vê surgir um belo vulto de mulher: era a terceira irmã: Georgina. Esta lhe conta sobre a doença de Júlia e o quanto seria bom para a convalescente poder vê-lo novamente. Infelizmente, Júlia falece. Georgina e Carlos aproximam-se e apaixonam-se. Ele precisa viajar a Portugal por causa da Guerra, mas, mesmo distante, envia-lhe cartas frequentes, com apaixonadas declarações. Enfim, depois de estar com Joaninha, Carlos torna-se mais frio em suas palavras e a inglesa percebe.
No final de sua carta, Carlos reconhece que é um monstro, um aleijão moral, por isso não poderia nunca fazer Joaninha feliz.
“Adeus, Joana, adeus, prima querida, adeus, irmã da minha alma! Tu acompanha nossa avó, tu consola esse infeliz que é o autor da sua e das nossas desgraças. Tu, sim, que podes; e esquece-me.
Eu, que nem morrer já posso, que vejo terminar desgraçadamente esta guerra no único momento em que a podia abençoar, em que ela podia felicitar-me com uma bala que me mandasse aqui bem direita ao coração, eu que farei?
Creio que me vou fazer homem político, falar muito na pátria com que me não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?... talvez darei por fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outras.
Adeus, minha Joana, minha adorada Joana, pela última vez, adeus!”
Metalepse : encontro do autor com a sua ficção – o autor torna-se parte da narração, conversa com as personagens e, inclusive, lê a carta de Carlos.
Na volta para Lisboa, Garrett quis entrar em contato mais íntimo com o ambiente em que haviam ocorrido os fatos narrados pelo amigo de viagem. Deixou que seus companheiros seguissem a viagem e aproximou-se da casa do Vale. Para a sua surpresa, encontrou ainda lá o frade e a velha cega que estava sempre a dobar (tecendo por meio de uma dobadoura), mas agora louca e alheia de todos, esperando a morte. Ao perguntar pelos outros personagens, recebe a informação de que Joaninha teria enlouquecido e morrido nos braços da avó e de Georgina, esta era abadessa (superiora de um mosteiro de religiosas) fundou um convento em Inglaterra, e Carlos, este, havia se tornado barão. Frei Dinis entrega a carta de Carlos ao autor. Ao terminar de ler a carta, Garrett afasta-se, deixando o frei em seu silêncio amargurado. Encontra-se com os amigos em Cartaxo, depois seguem para Lisboa:
“Assim terminou a nossa viagem a Santarém: e assim termina este livro.
Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De todas quantas viagens porém fiz, as que mais me interessaram sempre foram as viagens na minha terra.
Se assim o pensares, leitor benévolo, quem sabe? pode ser que eu tome outra vez o bordão de romeiro, e vá peregrinando por esse Portugal fora, em busca de histórias para te contar.
Nos caminhos-de-ferro dos barões é que eu juro não andar.
Escusada é a jura, porém. Se as estradas fossem de papel, fá-las-iam, não digo que não. Mas de metal!
Que tenha o Governo juízo, que as faça de pedra, que pode, e viajaremos com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra.”
Este material está registrado em cartório sob a Lei dos Direitos Autorais. Assim, “é vedada a reprodução desta aula — seja para fins didáticos ou comerciais — sem a devida autorização da autora”. LEI Nº 9.610, de 19 de fevereiro, 1998.
sábado, 2 de março de 2013
MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, Machado de Assis
A prof.ª Luci Rocha oferece palestras especiais sobre as obras dos vestibulares, a partir deste segundo semestre. Entre em contato pelo e-mailcurso_palavra@terra.com.br e agende uma aula. Dez alunos é o número mínimo
A ruptura com a narrativa linear:
A organização metalinguística do discurso narrativo:
O universalismo
Os grandes arquétipos
O pessimismo
Capítulo CLX
A ironia, o humor negro
Personagens
MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS - MACHADO DE ASSIS (1881)
Considerações Gerais
A ruptura com a narrativa linear:
Os fatos e as ações não seguem um fio lógico ou cronológico, obedecem a um ordenamento interior, são relatados à medida que afloram à consciência ou à memória do narrador, num processo que se aproxima do impressionismo.
A organização metalinguística do discurso narrativo:
É comum, na ficção machadiana, que o narrador interrompa a narrativa para, com saborosa e bem-humorada bisbilhotice, comentar com o leitor a própria escritura do romance, fazendo-o participar de sua construção; ou ainda, para dialogar sobre uma personagem, refletir sobre um episódio do enredo ou tecer suas digressões sobre os mais variados assuntos.
Machado assume a posição de quem escreve e ao mesmo tempo se vê escrevendo. Esses comentários à margem da narração constituem o principal interesse, pois neles está a mensagem artística do escritor.
Machado assume a posição de quem escreve e ao mesmo tempo se vê escrevendo. Esses comentários à margem da narração constituem o principal interesse, pois neles está a mensagem artística do escritor.
O universalismo
Machado captou na sociedade carioca do século XIX, os grandes temas de sua obra. O seu interesse jamais recaiu sobre o típico, o pitoresco, a cor local, o exótico, tão ao gosto dos românticos. Buscou, na sociedade do seu tempo, o universal, a essência humana, os grandes valores filosóficos: a essência e a aparência; o caráter relativo da moral humana; as convenções sociais e os impulsos interiores; a normalidade e a loucura, o acaso, o ciúme, a irracionalidade, a usura, a crueldade.
A pobreza de descrições, a quase ausência da paisagem são ainda desdobramentos dessa concentração na análise psicológica e na reflexão filosófica. As tramas dos romances machadianos poderiam, sem grandes prejuízos à narrativa, ser transplantadas para qualquer época e qualquer cidade.
Os grandes arquétipos
Uma das linhas mestras da ficção machadiana parte do aproveitamento dos arquétipos, que remontam à tradição clássica e aos textos bíblicos. (Arquétipo = modelo de seres criados; padrão exemplar; imagens psíquicas do inconsciente coletivo, e que são o patrimônio coletivo de toda a humanidade.)
Assim, o conflito dos irmãos Pedro e Paulo, em Esaú e Jacó, remonta ao arquétipo bíblico da rivalidade entre Caim e Abel; a psicose do ciúme de Bentinho, em D. Casmurro , aproxima-se do drama de Otelo e Desdêmona, de Shakespeare.
O pessimismo
Machado revela sempre uma visão desencantada da vida e do homem. Não acreditava nos valores do seu tempo e, a rigor, não acreditava em nenhum valor. Mais do que pessimista ou negativa, sua postura é niilista ("nil" - nada). O desmascaramento do cinismo e da hipocrisia, do egoísmo e do interesse, que se camuflavam sob as convenções sociais é o cerne de grande parte da ficção machadiana.
O capítulo final de Memórias Póstumas, o antológico das negativas, é exemplo cabal do pessimismo do autor:
Capítulo CLX
Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplastro, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
A ironia, o humor negro
A forma de revolta de Machado era o rir; quase sempre um riso amargo que exteriorizava o desencanto e o desalento ante a miséria física e moral de suas personagens. Observem o texto:
Daqui inferi eu que a vida é o mais engenhoso dos fenômenos, porque só aguça a fome , com o fim de deparar a ocasião de comer, e não inventou os calos, senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas.
Tu minha Eugênia, é que não as descalçaste nunca; foste aí pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitária, calada, laboriosa, até que vieste também para esta outra margem... O que eu sei é se a tua existência era muito necessária ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizeste patear a tragédia humana.
Resumo
Memórias póstumas de Brás Cubas conta a história de Brás Cubas a partir de sua morte, já que inicialmente o próprio narrador observa que para tornar a narrativa mais interessante e "galante" havia decidido começá-la pelo fim _ ; ele era, portanto, não um autor defunto mas um defunto autor _ . Assim, o primeiro capítulo começa justamente com a morte de Brás e seu enterro _ _ .
A causa de sua morte havia sido, oficialmente, uma pneumonia, da qual ele não cuidou de forma correta. Entretanto, sua morte de fato deve-se a uma ideia, segundo ele, grandiosa e útil, uma idéia que se transformou em fixação. Um dia de manhã, caminhando pela chácara onde vivia, pensou em inventar um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a melancólica humanidade _ . Para justificar a criação de tal emplasto frente às autoridades, Brás chamou a atenção de que a cura que traria seria algo verdadeiramente cristão, além de não negar as vantagens financeiras que tal produto traria. Contudo, já do outro lado do mundo, confessa que o real motivo era ver seu nome escrito nas caixinhas do medicamento e em todas as fontes publicitárias, pois as embalagens levariam seu nome _ _ .
Brás Cubas nasceu no dia 20 de outubro de 1805 _ . Foi uma grande festa para toda a família. Houve muitas visitas à sua casa e o pai estava orgulhoso por haver tido um filho homem. Todas as informações dadas são curtas, mas revelam os mimos recebidos pelo garoto durante toda a infância. Desde os cinco anos recebera o apelido de "menino diabo". Reconhece ele mesmo que, de fato, foi um dos mais malvados e travessos de seu tempo. Uma de suas diabruras foi ter quebrado a cabeça de uma escrava porque ela lhe negara uma colher de doce de coco, quando o menino tinha seis anos _ . Prudêncio, um moleque escravo da família, era seu cavalo de todos os dias _ . Brás conta ainda outras diabruras que fazia, entretanto, nada disso parecia ter importância para seu pai, que o admirava e, se lhe repreendia na presença dos outros, em particular lhe dava beijos _ .
Com nove anos, o garoto assistiu em sua casa a um jantar organizado pelo pai em comemoração à derrota de Napoleão. No final do jantar, Brás queria uma compota de doces, mas todos estavam distraídos escutando um dos letrados presentes, o doutor Vilaça, que fazia glosas e recebia, naquele momento, todas as atenções dos convidados. O menino começou a pedir o doce, depois gritou, berrou e foi tirado da sala por tia Emerenciana. Isso bastou para que sentisse uma enorme necessidade de vingança contra o doutor Vilaça. Ficou vigiando-o até surpreendê-lo numa moita beijando dona Eusébia, irmã de um sargento-mor. Para que todos soubessem, saiu pela chácara gritando o que havia visto _ .
Em seguida, após relatar tal episódio, Brás conta que cresceu normalmente. Foi à escola, que ele chama de enfadonha, onde teve aulas com um professor de nome Ludgero Barata. É justamente ali que conhece um de seus melhores amigos de infância, Quincas Borba, com quem se reencontrará mais tarde. Ambos os garotos revelam-se travessos e mimados, já que o Quincas era filho único, adorado pela mãe, que o vestia muito bem, mandando um pajem indulgente acompanhá-lo a todos os lugares.
Passado este período da vida do personagem, sobre o qual ele pouco fala, revela-nos seu caso com uma prostituta espanhola, a primeira mulher de sua vida. Brás a conheceu quando tinha dezessete anos. O jovem estava completamente envolvido pelos encantos da bela Marcela, a quem conseguiu conquistar, o que, contudo, lhe custou muitas jóias caras e presentes diversos. Brás confessa-se muito apaixonado neste período, motivo pelo qual o pai o enviou para estudar na Europa, receoso do envolvimento profundo do filho com uma prostituta.
Brás Cubas viaja para Portugal, onde estuda _ . Confessa haver sido um estudante medíocre, mas nem por isso deixou de conseguir o diploma _ . Nos tempos da universidade, apenas mencionados, preferia sair a fazer qualquer tipo de tarefa ou estudo. O diploma que lhe conferem estava longe de representar o conhecimento artificial que havia adquirido, artificialidade esta que marcou toda sua vida e as ações das pessoas que estavam à sua volta _ .
De volta ao Rio, Brás chega a tempo de ver sua mãe viva, mas já muito mal, à beira da morte, por causa de um câncer no estômago. Pela primeira vez, deparava-se com uma perda real e confessa que até então era um presunçoso que apenas havia se preocupado por coisas fúteis _ . Estava inconformado com a morte da mãe, pois lhe parecia uma enorme injustiça que uma pessoa tão santa, em seu julgamento, pudesse morrer de tão implacável doença. Por isso mesmo, após a missa de sétimo dia, resolveu passar algum tempo numa velha propriedade da família localizada na Tijuca. Levou consigo alguns livros, uma espingarda, roupas, charutos e Prudêncio. Ali ficou durante uma semana, quando então já se mostrava cansado da solidão e havia decidido voltar à cidade.
Justamente neste momento, o escravo conta ao patrão que na noite anterior havia se mudado para a casa ao lado uma antiga amiga da família, dona Eusébia, com uma filha. Brás reluta, não quer revê-la, já que se lembra da travessura de infância, quando denunciara a mulher e o doutor Vilaça que se beijavam às escondidas atrás de uma moita _ . Prudêncio, entretanto, recorda-lhe que fora dona Eusébia quem vestira sua mãe já morta. Ele decide, assim, visitá-la para retornar em seguida para a cidade.
Nesse mesmo dia, o pai de Brás sobe à chácara, pois quer sua volta à vida social. Traz consigo dois projetos para o filho: uma candidatura a deputado e um excelente casamento com uma moça de nome Virgília, filha do conselheiro Dutra, importante político. Brás reluta, mas o pai não se deixa vencer. Aconselha o filho, dizendo-lhe que ele não devia ficar ali, era preciso temer a obscuridade, as coisas pequenas. Conclui dizendo que o fundamental era valer pelo que a sociedade pensava _ . Brás concorda, finalmente, com os projetos e diz que descerá no dia seguinte, já que antes precisava visitar dona Eusébia _ _ .
De fato, a visita à velha amiga da família retardou a descida de Brás, que permaneceu ainda alguns dias na chácara. Foi ali que conheceu Eugênia, a quem ele mentalmente chamava "a flor da moita", pois a jovem era fruto das relações ilícitas entre dona Eusébia e o doutor Vilaça. O narrador simpatiza com a jovem e, mais que isso, pensa que pode tirar proveito da situação. Cinicamente, lembra-se de como era a mãe, motivo pelo qual espera conseguir algo da filha. Consegue, é verdade, beijá-la, entretanto, a moça revela-se dona de enorme dignidade, o que confunde Brás Cubas. Além disso, ele descobre que Eugênia tem um defeito de nascença: é coxa. Todos esses aspectos fazem com que ele confirme que não se deve envolver seriamente com ela, já que, além de tudo, ela estava em condição social inferior à sua _ .
Resolvido a terminar qualquer tipo de relacionamento, Brás volta à cidade, disposto a acatar os dois projetos do pai. Conhece Virgília, começam a namorar e ele está em vias de candidatar-se. Neste ínterim, passa por um ourives certo dia para consertar o vidro do relógio que lhe havia caído e depara com Marcela, que agora está com o rosto repleto de bexigas. A beleza de sua juventude desaparecera, dando lugar à deformação, que o narrador faz questão de descrever detalhadamente. Aquela visão o incomoda por algum tempo, entretanto não dura muito, como praticamente todos seus problemas _ .
Algum tempo depois de seu noivado com Virgília, surge, de repente, Lobo Neves, homem inteligente e astuto, que lhe arrebata Virgília e a candidatura. O pai não resistiu ao fracasso do filho, o que teria acelerado sua morte, quatro meses depois, tempo durante o qual ele repetia decepcionado a expressão "Um Cubas", inconformado com a sorte do herdeiro da família.
Passada a morte do pai, os irmãos Brás e Sabina, com a participação de Cotrim - marido de Sabina -, fazem a partilha dos bens. Arma-se uma grande e mesquinha discussão, os dois brigam por causa da herança deixada pelo pai, desde propriedades até a prataria, motivo de grande desavença, pois nenhum dos irmãos queria abrir mão da antiga relíquia da casa, usada em ocasiões importantes como o jantar em comemoração à derrota de Napoleão. No fim da disputa, os dois irmãos saíram brigados e já não conversavam entre si.
Por esta mesma época, Brás recebe de Luís Dutra, um primo de Virgília, a notícia de que ela estava voltando de São Paulo com o marido, então deputado. Encontram-se um dia e ela estava lindíssima _ . Algum tempo depois, como haviam se encontrado em dois outros bailes, o marido de Virgília convidou Brás Cubas para uma reunião íntima em sua casa. Brás, por essa época, escrevia textos literários e políticos em um jornal. Foi justamente nesta noite que os dois antigos noivos tiveram um maior contato. A partir daí, reataram sua antiga união, sobre a qual o narrador relata vários encontros e a paixão que sentiam naquele momento _ .
Certo dia, foi à casa de Virgília e encontrou-a triste, pois lhe parecia que seu marido desconfiava de alguma coisa. Para Brás, a melhor maneira de resolver o problema era que fugissem, mas Virgília não concordou. O marido chegou justamente nesse momento, e ela comportou-se como se nada houvesse acontecido, tratando friamente a Brás, o que lhe dá um terrível ódio de Virgília. No dia seguinte, ela o procurou com a idéia de que eles deveriam arrumar uma casinha onde se encontrariam, um lugar que seria só deles, já que sempre se encontravam na presença de outras pessoas, principalmente do marido .
A casinha da Gamboa foi, de fato, a saída encontrada pelos amantes para que pudessem continuar seu romance, pois grande parte da sociedade desconfiava de que havia algo entre os dois, por isso os comentários estavam cada vez maiores. Assim, a casinha foi importantíssima. Ali colocaram, D. Plácida, uma velha senhora amiga da família de Virgília e podiam encontrar-se com maior tranqüilidade _ .
Algum tempo depois, entretanto, Lobo Neves foi convidado a ocupar uma presidência da província no Norte. Os amantes ficaram desesperados, mas a saída foi dada pelo próprio marido, que convidou Brás a acompanhá-lo como seu secretário. Estava ainda relutante, pois toda a gente comentava seus amores com Virgília. Entretanto, o próprio Lobo Neves resolveu o problema ao recusar a nomeação. Tudo porque o decreto que o nomeava trazia o número 13, que ele considerava fatídico por vários acontecimentos tristes de sua vida _ . Dessa forma, o casal continuou vivendo seu relacionamento da mesma maneira que antes, na casinha da Gamboa.
Durante tais acontecimentos, Brás Cubas se reencontra com Quincas Borba, que está em uma situação deplorável, tornara-se um mendigo. Quincas acaba roubando o relógio de Brás Cubas neste encontro. Ainda nesse período, ocorre a reconciliação com a família, motivo de alegria para o narrador, que volta a visitar regularmente a irmã Sabina. Ela, como sempre, continua insistindo na ideia de que Brás precisava se casar, um homem em sua posição não podia continuar sem um herdeiro para o nome da família.
No entanto, o amor de Brás Cubas e Virgília, neste momento, vive seu ponto máximo, já que ambos haviam passado pela possibilidade de separação em virtude da nomeação de Lobo Neves, o que fortaleceu o sentimento que os unia. Além disso, Virgília disse estar grávida. Brás não perde a oportunidade de comentar que aquele era um embrião de "obscura paternidade", imaginava-o como sendo seu filho, dono de um belo futuro, vendo-o ir à escola, tornando-se bacharel e discursando na câmara dos deputados _ .
Contudo, Virgília perdeu o filho que estava esperando. Além do mais, o marido recebeu uma carta anônima acusando os dois amantes. A mulher negou veementemente que aquilo pudesse ter qualquer fundo de verdade, mas como Lobo Neves ficara desconfiado, Brás afastou-se da residência do casal, mesmo porque o espaço da Gamboa continuava resguardado. Algum tempo depois, Lobo Neves acabou reatando suas relações com o Ministério, desgastadas devido à sua recusa em aceitar o cargo anterior, conseguindo desta vez uma posição de presidente de província. O narrador brinca com o número do decreto, 31 agora, ressaltando que a simples inversão dos algarismos bastou para que a vida tomasse novo rumo.
Brás e Virgília mantém um curto diálogo antes da partida, despedem-se e ele conta que depois que ela viajou sentiu um misto de alívio e saudade em doses iguais. Não houve desespero, nem mesmo dor, o fato trouxe-lhe apenas alguns poucos dias de reclusão em sua casa e uma pequena amostra do que era a viuvez. Morreram seu tio cônego, Ildefonso, e dois primos, pelos quais ele não sofreu. Também nasceu sua segunda sobrinha. Segundo ele, esta era a filosofia das folhas velhas, que caem e morrem, enquanto outras nascem. Ele mesmo agitava-se de quando em quando e recorria às suas cartas de juventude _ .
Tal reclusão, entretanto, como qualquer de seus pensamentos mais profundos, passou rapidamente, em especial pelo reaparecimento de Quincas Borba e seu envolvimento com Dona Eulália, chamada familiarmente de Nhã-Loló. A jovem tinha dezenove anos, era filha de Damasceno, faltava-lhe certa elegância, segundo Brás, mas tinha belos olhos e uma expressão angelical. O narrador conheceu-a ainda quando Virgília estava no Rio de Janeiro e estava grávida. Sabina insistia na idéia de que Nhã-Loló seria uma excelente esposa para o irmão, que se esquivava por aquela época. Entretanto, quando se deu conta, estava praticamente nos braços da jovem e acabaram ficando noivos três meses após a viagem de Virgília. Acontece, porém, que a jovem morreu repentinamente, antes do casamento, fato que nos vem anunciado não pela voz do narrador, mas sim pela apresentação do epitáfio _ _ _ .
Em relação ao Quincas Borba, ele reaparece após ter recebido uma herança e voltado a ocupar boa posição social. O narrador observa que o amigo está com um comportamento um pouco estranho. Quincas defende uma filosofia criada por ele mesmo, o Humanitismo. Diz o filósofo que o mundo é uma projeção de Humanitas, que seria a substância de todas as coisas existentes, da qual elas emanam e para a qual convergem. Dito de outra maneira, para ele, todos os homens são iguais entre si, já que trazem consigo uma parte da tal substância original e todas suas atitudes têm uma explicação que busca o equilíbrio do mundo, mesmo que por meio da guerra e da violência, já que tudo deve voltar para onde começou.
Nesse sentido, ainda na visão do filósofo Quincas Borba, mesmo aquilo que nos parece negativo tem uma função essencial. Segundo o seu sistema, a dor e o sexo são excluídos do mundo, enquanto a guerra, a fome e outras formas de violência existem para que o meio possa selecionar aqueles que são mais fortes _ . Os mais fracos não sobrevivem e assim deve ser. Além de tudo, devem sentir-se felizes também, já que estão tomando parte do sistema do Humanitas. Em outros termos, estes mais fracos, mesmo derrotados, estariam servindo, de alguma maneira, ao princípio do qual descendem, que prevê tais injustiças como forma de equilibrar o mundo ou até mesmo de quebrar a monotonia universal _ _ .
Brás Cubas, desde que conhece os princípios do Humanitismo até o final de sua vida, esteve tentando entender melhor tal sistema, sempre relacionando-o a algum acontecimento cotidiano de sua vida, questionando sua validade ou não. Articula, então, uma série de teorias e preocupações filosóficas, presentes inclusive em seu delírio _ . Ali também o onça mata o novilho, pela sua sobrevivência, o mais forte vence o mais fraco. Segundo o Humanitismo, não há outra saída par a existência, de maneira que mesmo as coisas negativas devem ser vistas como necessárias e justificadas, por fazerem parte do sistema universal, por saírem daquela tal substância básica da qual saímos todos e para a qual voltaremos, segundo Quincas Borba.
Quincas será uma personagem com quem Brás se encontra muitas vezes a partir desse momento até a sua morte. Quanto à vida diária, depois de algum tempo Brás tornou-se deputado e Lobo Neves voltou ao Rio. Ambos estavam na mesma câmara e Brás ouvia um discurso proferido pelo marido de Virgília. Não sentiu nenhum tipo de remorso e reencontrou a antiga amante num baile em 1855. Observou que continuava muito bonita, ainda que fosse, claro, uma beleza diferente. Os dois conversaram muito, mas sem falar do passado. Brás teve alguns momentos de reflexão e uma certa tristeza. Tinha cinqüenta anos! Mas o Quincas garantiu-lhe que ele não poderia estar preocupado, já que era a idade da ciência e do amadurecimento. Brás decidiu então que participaria de maneira mais ativa das discussões, já que tinha sido sempre um político afastado dos problemas, assim como o era na vida pessoal. Almejava o cargo de ministro, coisa que também não conseguiu e nem mesmo a explicação através de Humanitas que lhe deu Quincas foi capaz de animá-lo.
Passado algum tempo, Brás recebe uma carta de Virgília pedindo-lhe que vá ver Dona Plácida, que está morrendo na miséria. Ele pensa recusar, mas acaba indo, ajuda a mulher que lhe serviu de alcoviteira durante tanto tempo. Morre Dona Plácida e Brás decide fundar um jornal, que era uma aplicação política do Humanitismo. Era um jornal oposicionista, o que preocupou Cotrim, que rompeu relações com o cunhado. Algum tempo depois, morreu Lobo Neves, Brás Cubas reconciliou-se novamente com o cunhado e filiou-se a uma Ordem Terceira, responsável por ajudar as pessoas necessitadas. Cansou-se depois de alguns meses. Na Ordem Terceira encontrou Marcela, que morreu no mesmo dia em que ele visitava um cortiço no qual encontrou Eugênia, segundo ele, tão coxa como a deixara e ainda mais triste _ _ .
Finalmente, Brás conta que Quincas Borba partiu para Minas Gerais algum tempo antes e, ao voltar, estava louco. E, o mais triste e paradoxal, tinha consciência de sua loucura. O narrador explica que entre a morte do Quincas Borba e a sua aconteceram os episódios narrados no começo do livro, em especial a ideia fixa da criação do emplasto Brás Cubas. Conclui sua longa e entrecortada narrativa através de um capítulo que busca resumir a vida pela negação: não alcançou a celebridade, não foi califa, não se casou, não foi ministro. Entretanto, observa que a negação também pode ser positiva: não padeceu a morte de Dona Plácida ou a demência do Quincas Borba. Assim, alguns leitores até poderiam imaginar que ele saiu quite com a vida. Mas não. A negativa última revela o ceticismo do narrador em relação ao mundo diz que ao não ter tido filhos seu saldo foi positivo, pois assim não transmitiu a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.
Personagens
Brás Cubas - narrador - morto aos 64 anos - “ainda próspero e rijo”, fidalgo
Marcela - Segundo grande amor de Brás Cubas, uma prostituta de elite, cujo amor por Brás duraria quinze meses e onze contos de réis.
Virgília - filha do comendador Dutra, segundo o pai de Brás, Bento Cubas A “Ursa Maior” amante de Brás Cubas casa-se com Lobo Neves por interesse.
Quincas Borba - menino terrível que dava tombos no paciente professor Barata, colega de escola de Brás que o encontrará mais tarde mendigo que rouba-lhe um relógio mas retorna-o ao colega após receber uma herança. Desenvolve a filosofia do humanismo: “Ao vencedor as batatas ao vencido ódio ou compaixão”.
Eugênia - Filha de Eusébia e Vilaça, menina bela embora coxa.
Nhá Loló - moça simplória, tinha dotes de soprano - morre de febre amarela..
Cotrim - casado com Sabina, irmã de Brás; ambos interesseiros
Nhonhô - filho de Virgília
D. Plácida empregada de Virgília confidente e protetora de sua relação - extra conjugal
Lobo Neves - casado com Virgília, homem frio e calculista.
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